sexta-feira, 1 de maio de 2009

15 ANOS SEM SENNA: 1983 O ANO DA PRÉ-CONSTRUÇÃO DO MITO.



O Brasil tinha naquele ano de 1983 um bi campeão mundial de Formula 1, Emerson Fittipaldi, numa entre-safra de carreira, tendo voltado a competir em super karts e ensaindo uma ida aos EUA, e um campeão mundial em atividade. Havia no entanto, um problema: ao mesmo tempo em que Fittipaldi era carismático e atencioso com a imprensa, Piquet, tímido pessoalmente e ainda ressentido com as injustiças que julgava ter sido vítima principalmente pela imprensa esportiva paulista, era arredio e pouco "comercializável" em termos de marketing de massa. A Rede Globo de Televisão havia abandonado as transmissões das corridas de Formula 1 no ano de 1981, mas com o campeonato de Piquet (transmitido pela Band) voltou a se interessar no potencial comercial da categoria e precisava desesperadamente de um ídolo, um "gancho" para as cotas de patrocínio cada vez mais elevadas, cortesia da visão e da ganância do senhor Bernard Ecclestone.
Os radares do escritório da Rede Globo em Londres, capitaneada por Jaime Brito, haviam detectado os resultados de um jovem piloto paulista nas categorias de base. Outros brasileiros já na Formula 1, Chico Serra e Raul Boesel não despertavam muito o entusiasmo da emissora, apesar de Boesel bem patrocinado por empresas estatais (Embratur e Café do Brasil) ter boas conexões pessoais com o doutor Roberto Marinho - por ter sido ginete de sucesso.
Senna assinou contrato para disputar o campeonato britânico de Formula 3 pela melhor equipe da época, West Surrey Racing, comandada por Dick Bennets, um neozelandês taciturno e objetivo. Sua concorrência era pífia (claro que ele nada tinha a ver com isso, o problema era o alto custo da temporada e o surgimento de campeonatos alternativos de Formula 3 bem mais econômicos, como o europeu, o italiano e o alemão). O único piloto que poderia lhe fazer frente no papel e subsequente nas pistas era o britânico Martin Brundle, que jamais havia passado pelo kartismo, tendo começado a competir em algo parecido com o rally cross, depois com carros de turismo (foi companheiro de Sir Stirling Moss e muito elogiado por este em 80).
Pois bem, pela primeira vez tendo tempo hábil para se preparar, Senna não decepcionou, longe disso: venceu as primeiras provas da temporada, disparando na classificação. A bem da verdade ele fez a sua parte, mas o campeonato em si era bem fraco, com a excessão de Brundle e do canadense Allen Berg (com passagem discretissima pela Formula 1 pela Osella anos mais tarde). Eu havia dado uma entrevista ao programa Esporte Espetacular (estava iniciando minha carreira na Formula Ford) para o Luiz Fernando da Silva Pinto, e desenvolvi uma amizade com o pessoal da Globo em Londres. Um belo dia em julho, senão me engano, recebo um telefonema do Reginaldo Leme me perguntando se poderia fazer-lhe um favor. Eles estavam temporariamente sem motorista e precisavam ir a Silverstone entrevistar o Senna. Claro que concordei e no outro dia logo de manhã, peguei a Van da emissora e fomos, Reginaldo, Galvão Bueno (de quem eu jamais havia ouvido falar, pois já estava fora do Brasil há três anos) o cinegrafista e o "cable-man" meu camarada Silvio Motta. A conversa foi legal - claro que quem mais falou, adivinhem, foi o papagaio Galvão.
Chegamos a Silverstone, era um sábado se não me falha a memória, e o Senna já estava treinando com o Ralt branquinho da West Surrey. Quando ele fez uma pausa, veio simpático falar com a gente, e eu fiquei no fundo, batendo papo com o Maurício Gugemin, enquanto Senna era entrevistado. Àquela época não havia internet, as comunicações eram muito difíceis e o Reginaldo sugeriu que eu ficasse ali atrás como "papagaio de pirata" para que meus familiares no Brasil pudessem matar um pouco as saudades.
No final daquele ano Senna foi convidado a testar um carro da Willians e reza a lenda que ele foi mais rápido que ambos, Rosberg e Laffite os pilotos titulares da época. Sei que ele negociou com outras equipes, houve a polêmica do suposto veto de Piquet na Brabham e a eventual assinatura de contrato com a equipe Toleman. A Rede Globo estava feliz, porque apesar de Nelson Piquet ter conquistado o bi campeonato com a Brabham, as apostas da emissora do Jardim Botânico eram todas naquele rapaz tímido e chamado já naquela época pelos ingleses com "magic Senna".

4 comentários:

Henry disse...

Cezar,
Mais uma bela página.

Cezar Fittipaldi disse...

Muito grato Henry, teu blog é excelente.

Bruno Santos disse...

Grande Cezar, com certo atraso volto a ler suas memórias. Eu reconheci essa passagem de motorista da Globo de outros tempos. Para aturar pouco o Galvão você deve ter acelerado pra valer...rsrs. Desde o cedo o show em torno do Senna estava preparado e o melhor, deu certo porque o cara tinha muito talento.
Abraços.

Antonio Manoel disse...

Ta mandando bem,
Seus textos são muitos bons,

Abraço
Manoel