terça-feira, 12 de maio de 2009

BITS & BITS: CORRIDAS E VIDAS



Eu sempre imaginava como seria o "momento". Perdi a conta de quantas horas eu havia ficado olhando para o vazio, pensando naquilo. Antecipando a sensação, ou melhor as sensações todas, desde a mais forte até a mais insignificante delas. Deitado de costas  em meu quarto de adolescente, fechava os olhos, esticava as pernas, apoiava as costas com almofadas, colocava os braços em posição, ajustava um imaginário espelho retrovisor, apurava os ouvidos para as mínimas batidas das válvulas do motor, acelerava um pouco, engatava a primeira (com direito a um pequeno tranco do trambulador), levantava a enluvada mão esquerda e, num gesto em semi-círculo dizia aos mecânicos que estava pronto e.....
Sempre que chegava a esse ponto, algo me fazia perder a concentração, como se fosse profano sonhar em estar dentro do cockpit de um carro de corrida. Em minha cabeça vinham imagens de Graham Hill, Jim Clark, Chris Amon, Dan Gurney, Ludovico Scarfiotti, Lorenzo Bandini, Jackie Stewart, John Surtees, Jochen Rindt. Aqueles charutinhos lindos e que eu podia apenas imaginar como seriam, já que os tinha visto apenas em fotos, e essas, nem eram tão boas assim. Em algum lugar eu havia lido que só se avistava cerca de 8 mestros a frente, pois a posição era quase deitado dentro de um tanque de gasolina, e meu imaginário naturalmente fértil chegava a antecipar as sensações de cheiro, de tato, de sons e imagens dentro de uma cabecinha sem capacete! Assim como existem malucos que tocam guitarras de ar, eu guiava e guiava, trocando marchas "no tempo" , ultrapassando em lugares impossíveis, ganhando provas na última curva e sendo ovacionado pelas multidões. Não haviam vídeo games naquela época, talvez se eles existissem então, a imaginação não tivesse sido tão precisa.
Muitos anos se passaram e o sonho tornou-se realidade. Novembro de 1980, juntando todas as minhas economias, tomando coragem, fazendo um telefonema (com a ajuda de meu amigo Mário), reservando meu lugar na última turma daquele ano. A viagem ao norte, de trem, inesquecível e temerária, pois o desconhecido espreitava em cada canto e a neve ameaçava em cada previsão que se via. Ao chegar à pequena cidade, uma pessoa me esperando com uma van de tinturaria (ou pelo menos parecia ser), falando rápido demais para o meu incipiente inglês e me conduzindo ao pequeno hotel. Noite mal dormida, ansiosa, antecipando cada minuto do dia que estava por começar. Rápido desjejum, a mesma velha van, e mais dois novos amigos, ambos ingleses e com quem eu só podia me comunicar através de gestos.
A chegada à velha pista de Snetterton, a sala de aulas teóricas, as apresentações de praxe. Algumas horas de explicações sobre tangências, pontos de freadas, aceleração, um pouquinho de física e a ansiedade chegando a 10.000 rpm no coração. Um intervalo, e depois teremos o primeiro contato com os carros de corrida- velhos Formula Ford Merlyns, mais parecendo aqueles carrinhos de trombada de parques de diversão, mas que aos meus olhos embevecidos pareciam Lotus e Ferraris tinindo de novas.
Um macacão amador, que arrancou discretos risinhos de meus colegas, paramentados de forma mais profissional, um capacete de motos- e de marca vagabunda, diga-se, luvas azuis de lã, tricotadas com carinho por minha mãe, assim como a exótica balaclava roxa. 
O meu carro é o amarelinho. Tem um mecânico ao meu lado, para me ajudar a me encaixar dentro dele. Primeiro a perna esquerda, dobre o joelho, escorregue lentamente para baixo, perna direita, sente-se os pedais, ombros encolhidos para encaixarem, o banco está puxado para trás ao máximo. Regular espelhos, apertar os sintos, olhar para frente e.....oito metros adiante podemos ver o chão. Chave geral ligada, mão esquerda em semi círculo, apertar o botão de partida e o rugido alto do motor pode ser escutado dentro do capacete. 
Um a um os carros a minha frente vão saindo para a pista e a recomendação é não passar de 4.500 giros. Chega a minha vez, nervoso me esforço para não deixar o motor morrer e consigo. O carro move-se um pouco, aperto um pouco mais o pedal do acelerador, olho no espelho, o sinal de saída dos boxes está verde e acelero mais e procuro a segunda marcha. O sonho começa a tomar forma....


4 comentários:

Francisco J.Pellegrino disse...

Vai que tá bom, tô me sentindo pilotando a barata...

Felipão disse...

hehehehe

ia dizer isso também...

Go Cesar...

Ahhh

Excelente blog...

Abração!!

Henry disse...

Belo esse texto, Cezar...

Bruno Santos disse...

Hoje finalmente consegui uma folga e vou acompanhar os episódios que perdi.
Primeiro que o texto está excelente e descreveu detalhadamente a situação, como se eu estivesse vivenciando mesmo. Eu consigo imaginar a ótima sensação do sonho começando a ser realizado, era hora de colocar a segunda marcha...

(não consegui deixar de rir da sua exótica balaclava...te imagino entre os outros...rsrs.)
Abraços.