quarta-feira, 2 de setembro de 2009

NA ESTRADA - CONTINUAÇÃO DA INFINDÁVEL SAGA PESSOAL



O ano de 1983 apresentava-se a mim com o seguinte aspecto: havia saído de minha Ourinhos natal no início de 1980 diposto a correr de automóveis na Inglaterra, sem experiência alguma (nem em kart), quase sem grana e literalmente, sem lenço e nem documento. Dei muita sorte em conhecer pessoas que me ajudaram e com menos de três meses de Londres, já estava trabalhando legalizado num departamento da ONU - IMO. Juntei um dinheirinho e fui fazer a escola de pilotagem internacionalmente famosa "Jim Russell", com resultados animadores. O ano de 1981 me trouxe algumas decepções, pois aluguei carros de Formula Ford para algumas corridas, mas sem treino e sem conhecer os circuitos, além dos carros serem verdadeiras "cadeiras elétricas", nenhum bom resultado aconteceu. O mesmo sucedeu em 1982, e ao chegar em 1983, eu tomei uma decisão drástica: iria parar de gastar dinheiro alugando carros velhos e não competitivos, e iria tentar comprar algum equipamento. Dito e feito.
Além de meu emprego regular na IMO, que pagava legal, mas evidentemente não permitia extravagâncias tais como correr de carros, consegui um emprego num cinema, o ABC Fulham Road, como lanterninha! eu saía da IMO as cinco da tarde, pegava meu carro e literalmente voava para Fulham ( a IMO era do lado de baixo do Rio Tâmisa áquela altura, prédio novo e lindo, inaugurado pela própria rainha, depois conto a história). Tive vários carros de rua durante o tempo que morei na Inglaterra. Sempre dei preferência para modelos médios/grandes, pois tinha que rebocar carros de corrida, sou meio grandão, etc.
Bom, na IMO eu trabalhava com um iuguslasvo, Zoran, que era o rei do "jeitinho". A comida, além de muito ruim, era muito cara em Londres no começo dos anos 80. Portanto o iuguslavo Zoran tinha uma formula infalível de comer bem e barato: ele adquiriu um guarda pó branco, adentrava um hospital que ficava perto de nosso emprego, nunca ninguém pediu crachá ou coisa parecida, íamos ao enorme restaurante e, num mar de gente de guarda pós brancos, médicos e enfermeiros, principalmente, o que são mais dois? Eu comprei meu guarda pó, e na hora do almoço, saíamos de fininho e íamos ao Lambeth Hospital, onde entrávamos por uma porta lateral. Dali até ao enorme restaurante era perto, entrávamos, ficávamos na fila e comíamos muito, estilo bandejáo por apenas uma libra esterlina! Zoran era muito paquerador, e não demorou muito para que fizesse amizade com algumas enfermeiras bonitinhas. Pois bem, eu saía do meu emprego e na esquina do cinema, havia outro hospital. O mesmo guarda pó, me garantia o jantar por mais uma libra, uma verdadeira pechincha!
Começava o expediente às 6 da tarde, de segunda a sexta, e aos sábados e domingos da uma da tarde até mais de meia noite. Logo peguei um bico de montar os enormes letreiros, com os novos filmes que iam entrar em cartaz. Fazia um frio danado, tinha que ir até o porão, pegar as letras, a escada, e montar na fachada, mas isso me rendia mais alguns trocados. A gerente gostava de mim, pois nunca recusava trabalho, e logo, passei de lanterninha a porteiro, com direito a gravata borboleta e tudo. Era muito legal, pois o cinema era enorme, com 5 salas de exibição e ali eram lançados diversos filmes novos. Tive a oportunidade de ver de perto, astros como Richard Gere, Sean Connery, Jennifer Beals, Debra Winger e muitos outros, além de famosos que iam assistir aos filmes, como o saudoso e eterno "superman" Cristopher Reeve, grandão e muito simpático, que casado com uma inglesa, tinha um apartamente ali ao lado. Durante todo o ano de 1983 eu acumulei os dois empregos e não fiz nenhuma corrida. Mas, ao ver meu extrato bancário eu via que meu primeiro Formula Ford estava cada dia mais perto! Comprava a revista Autosport, que saía na quinta feira, mas eu a conseguia na quarta a noite, numa distribuidora. Assim, podia vasculhar sua seção de classificados antes dos outros leitores, e caso encontrasse alguma coisa que valesse a pena, tinha a vantagem. Acabei encontrando um carro que cabia no meu bolso, um velho Royalle PR24 de 1977 (estávamos em 1983), em ótimas condições ao norte da Inglaterra. O cara tinha começado a correr, acabou casando e o carro tinha pouquíssimo uso, e principalmente, nunca havia sofrido acidentes sérios. Ele me mandou fotos pelo correio (isso tudo foi pré-internet) e um belo dia, fui buscar o meu bólido! Gostei do que vi e não hesitei em fechar o negócio. Havia colocado um "rabicho" no meu carro, atrelei o trailer que acompanhava o carro, mais um monte de peças sobressalentes e um motor extra e rumei para Londres. Onde deixar aquele carro? O "jeitinho" resolve tudo, e falei com minha chefa na IMO, que me permitiu deixar o carro na garagem por alguns dias. Era engraçado ver a cara dos circunspectos ingleses ao chegar ao trabalho de manhã e deparar-se com um trailer, carro de corrida, tudo coberto por lonas, na vaga de estacionamento de seu local de trabalho! Acabei alugando uma garagem dentro do circuito de Brands Hatch, na verdade onde eram os boxes. Não era caro, mas houve um problema: realizou-se no final de 83 em Brands o GP da Europa, e tivemos que remover nossas tralhas por uma semana. Em troca, ganhei ingressos para ver a prova dos boxes, e calhou que onde ficava minha garagem foi utilizada pela equipe Brabham de Nelson Piquet, que venceu a prova! 1984 chegou tão rápido quanto o livro de Orwell, e eu tinha um monte de ferro velhos e nenhuma grana! O inverno foi terrível, mas eu comecei a circular novamente pelos circuitos para ver se fazia contatos, cavava algo para mim. Queria correr e logo! Mas ainda ia demorar....

continua

Um comentário:

walker disse...

E ai cezar tudo bem não sei se vai lembrar de mim mas em ourinhos nós aprontavamos gostavamos de cart e mais umas cervas já lembrou? é o walker por aqui um grande abraço e gente se ve