segunda-feira, 6 de abril de 2009

REMINISCÊNCIAS PESSOAIS (5)







Estávamos em 1978 e obviamente ainda temos um longo caminho a percorrer, vou fazer o melhor que posso para que essa jornada seja agradável.
O Brasil era completamente diferente do que é hoje, o que mais se ouvia era que "éramos um país sub desenvolvido", terceiro mundo. Eu jamais concordei com esse complexo de inferioridade, mesmo então quando nem tinha idade e tampouco experiência para saber melhor. Nossa indústria automobilística era protegida das importações, nossos carros eram um tanto quanto defasados em relação aos carros dos países mais adiantados. No final de 1976, se não me engano, foram proibidas as importações de veículos, motos e barcos incluídos. Eu que sonhava em possuir uma Honda 750 a famosa "7 galo" tive que me contentar com uma 125, e nem reclamei, porque era o que tínhamos disponível. No interior nós não éramos muito politizados, sabiamos claro que havia um governo miliar, mas isso não nos causava revolta ou qualquer tipo de reação adversa, a desinformação era muito grande. Só vim adquirir uma certa consciência sobre isso quando fui fazer o cursinho na cidade de Marília, em 1979 e alguns professores nos diziam que "barbaridades aconteciam naquele exato momento", sem muitos detalhes, meio velado. Lá fora a Formula 1 teve um ano estranho, e o campeão mundial de 1978 foi o Mario Andretti, habilmente escoltado pelo gentleman Ronnie Peterson. Muita gente até hoje não entende porque Peterson aceitou as condições de voltar á equipe Lotus na condição de segundo piloto e apesar de mais rápido, praticamente deixar Andretti levar o título. As coisas não são tão facilmente explicadas assim depois de mais de trinta anos. Peterson teve um início de carreira fulminante na Formula 1 em 1971, com uma March muito esquisito, sagrando-se vice-campeão mundial, após uma campanha fraca em 1970. Apesar de não ter vencido nenhuma prova naquele ano, ficou em segundo no mundial atrás apenas de Jackie Stewart e o futuro parecia promissor. Mas não foi, 1972 foi um ano fraco de resultados, em 1973 ele aceitou ir para a Lotus, onde finalmente venceu o seu primeiro Grande Premio (acho que venceu 4 no total naquela temporada), mas em 1975 a Lotus estava em franca decadência e ele pouco pode fazer. Em 1976 ele correu com um March particular, com resultados muito desiguais, e apesar de ter vencido o Grande Premio da Italia em Monza e estabelecido a pole position na Holanda, ele teve que pagar para correr, o que naquela época era um absurdo para um piloto de seu nível. Em 1977 ele foi para a equipe Tyrrell, mas o carro de seis rodas e outras bizarrices não lhe permitiram obter resultados muito bons. Somou apenas 7 pontos no final do ano, e quando foi sondado por Chapman para voltar a equipe, com a condição explícita de ser o segundo de Andretti, aceitou sem pestanejar, parece que nem salário ele recebia. Isso ocorreu porque seu compatriota Gunnar Nilsson, um piloto que eu gostava muito e que havia sido adversário de Alex Dias Ribeiro na Formula 3 inglesa em 1975 e era piloto da Lotus (ganhou de maneira incrivel o GP da Belgica de 1977, com Peterson em 3º) estava com um cancer que acabou por levá-lo a morte com apenas 28 anos de idade, uma grande perda para o esporte. Portanto, para aqueles que não conhecem esses detalhes, pode parecer absurdo que Peterson tenha concordado em ser segundo piloto, mas não é, pois devido ao mal gerenciamento de sua carreira, ele agarrou as chances que tinha. Infelizmente, veio a falecer num acidente besta na largada do GP da Italia em Monza, de embolia pulmonar, coisa que hoje, com os recursos da medicina, provavelmente não ocorreria. Um outro piloto que eu gostava muito naquela época, Riccardo Patrese da equipe Arrows, foi acusado de provocar o acidente e inclusive, foi suspenso por algumas provas. Depois Patrese se tornou um piloto burocrático, mas tive a oportunidade de conversar e jantar com ele em Portugal em 1985, num agradável restaurante perto do autódromo do Estoril ( essa história eu conto depois).
O ano de 1979 para a Formula 1 foi meio brochante, eu jamais gostei do Jody Scheckter, desde aquele acidente com o Emerson no GP da França de 1973, quando este foi eliminado da prova pelo então jovem sul africano. Reconheço que Scheckter foi um grande talento, mas também se tornou um piloto burocrático, e após seu título pela Ferrari em 1979, teve um ano terrível em 1980, marcando apenas dois pontos no campeonato (uma das piores defesas de título que já vi) e abandonando de vez as pistas para se tornar milionário nos Estados Unidos.
No final de 1976 o Alex Dias Ribeiro ( que eu tenho a honra de ter entre meus amigos do orkut) estreou na Formula 1 pela equipe Hesketh, então decadente, no GP dos EUA. Ele vinha de ótimos resultados nas categorias de baixo, F3 e F2, e estava na mira de gente importante como Ecclestone. Para 1977 ele assinou um contrato com a equipe March ( que lembrem-se havia vencido o GP da Itália com Peterson em 1976 e o GP da Aústria com Brambilla em 1975), levando um patrocínio bem interessante da Caixa Economica Federal e dos cigarros Hollywood, e seu patrocinador mais que pessoal, a mensagem "Jesus Saves". Alex era uma figura rara, e realmente acreditávamos que ele teria bastante sucesso na Formula 1, pois era talentoso em duas áreas importantes: como piloto e em marketing ( poucos pilotos antes e depois tinham tanta noção de marketing como o baixinho). Infelizmente, as coisas desandaram e graças ao mau-caratismo do Senhor Sado Max Mosley (então proprietário da equipe March) as carreiras de Alex e do sul-africano Ian Scheckter (irmão mais velho de Jody) foram definitivamente arruinadas. Essa saga está bem documentada no livro "Mais que um vencedor" de Alex, que eu tenho guardado em casa.
Pulando para 1978, e para encerrar esse capítulo, mais um brasileiro viria a estreiar na Formula 1: Nelson Piquet, que estava detonando todos os recordes no campeonato inglês de Formula 3, pela equipe Ensign. Eu que havia acompanhado a carreira de Piquet de perto, no Brasil, tendo-o visto duelar com pilotos como Alfredo Guaraná Menezes, Chiquinho Lameirão, Marcos Troncon, e tantos outros, sabia que ele tinha potencial, mas nunca imaginei que iria tão longe.

Um comentário:

Bruno Santos disse...

Como um empresário bom faz falta, grande Peterson. Um dos melhores de sua geração. Nelson Piquet já ganharia seu primeiro título poucos anos depois, e muito feliz por ter escapado da Copersucar, o mesmo não aconteceu com Chico Serra e Ingo Hoffman.
Muito boas as lembranças, Cezar
Abraço.