sexta-feira, 3 de julho de 2009

PRETENSIOSA ANÁLISE SOBRE PERSONALIDADE VERSUS PERFORMANCE : CAMPEÕES E NÃO CAMPEÕES DA FORMULA 1








Com esse pequeno artigo sobre Niki Lauda, e as opiniões sobre sua personalidade, me senti impelido a pretensiosamente, tentar entender o que faz de fato um piloto tornar-se campeão, e o que a parte psicológica influi neste quesito. Não poderira ir muito atrás a tentar analisar pilotos como Farina, Ascari (que deve ter sido fantástico) ou mesmo Fangio - faltam-me parâmetros suficientes para empreender tal tarefa. Vou tentar começar com alguns que acompanhei de longe. O primeiro campeão mundial que me intrigou pela classe, aplomb, técnica, mas principalmente pela personalidade marcante foi Graham Hill. Veio de família de classe trabalhadora, foi marinheiro, mecânico, economizou bastante para poder praticar automobilismo, tendo antes sido um bem sucedido remador - o desenho de seu capacete era uma homenagem ao seu clube de remo, Londono Rowing Club. Ele escreveu em sua autobiografia que os anos que passou remando lhe proporcionaram obter auto-disciplina, dedicação e principalmente a nunca desistir, por mais difícil que a situação se apresentasse. Hill nunca foi o melhor piloto tecnicamente falando, tendo enfrentado adversários muito mais talentosos e os vencido. Posso enumerar alguns deles : Stirling Moss ( quatro vezes vice, considerado um dos maiores mitos do automobilismo britânico, mas sem um único título a ostentar seu nome), Dan Gurney ( o único piloto que o grande Jim Clark realmente respeitava), Chris Amon (o mais azarado deles, o neozelandês de personalidade difícil jamais venceu um GP oficial de F1), Bruce Mclaren ( o fundador da equipe que leva o seu nome era piloto e engenheiro brilhante, mas nunca foi campeão), e muitos outros. Hill, apesar de ser tido como um gentleman e por isso mesmo um perfeito embaixador para o esporte, tinha o "killer instinct" - instinto matador que talvez diferencie os campeões dos demais.
O segundo piloto que me chamou a atenção foi Jim Clark. O escocês, gênio em sua arte, era velocissímo e se não fosse a fragilidade dos carros dos anos sessenta e em particular das Lotus que ele sempre pilotou, certamente teria vencido mais que os dois títulos mundiais e os 25 GPs que conquistou. Além disso, morreu no auge, disputando uma prova de Formula 2 na Alemanha, e à exemplo de Ayrton Senna, podemos apenas especular o que o destino lhe reservaria em termos de títulos no futuro. Sua personalidade era amigável, cortêz, mas sua determinação e foco eram lendários. Jackie Stewart, seu conterrâneo e sucessor também apresentava essas características e, a exemplo de Hill, também praticou outro esporte olímpico com destaque: o tiro aos pratos, chegando a fazer parte da equipe escocesa. Isso tudo, sendo dislexico e tendo dificuldades de interação social. Alem de grande campeão e gênio do marketing, foi também líder na luta para a melhoria das condições de segurança nos autódromos - que mais pareciam uma arena romana manchados de sangue naqueles anos 60.
Jochen Rindt, nascido na Alemanha, mas criado na Àustria pelos avôs maternos após a morte de seus pais num bombardeio na Segunda Guerra Mundial era veloz, mas fez muitas escolhas erradas de equipamento em sua carreira na Formula 1, desperdiçando anos na decadente equipe Cooper. Quando resolveu ser profissional e assinou com a equipe Lotus, apesar de não gostar de Colin Chapman, com quem nunca teve uma boa relação, chegou ao título, mesmo que após a morte.
De Emerson Fittipaldi, além do brilhantismo técnico, resssalto a inteligência superior e a capacidade de minimizar suas fraquezas (era péssimo em largadas, por exemplo) e maximizar suas partes fortes. Era ótimo em seguir alguém de perto a ponto de desasbilizá-lo, tinha bom ritmo de corrida, pilotava bem na chuva e sabia impor-se como campeão aos outros pilotos. Sua mera presença no espelho retrovisor atemorizava os adversários, e mesmo nos anos de "vacas magras" pilotando por sua própria equipe Copersucar, era um dos mais carismáticos pilotos do grid.
Niki Lauda tinha o cérebro equipado com um computador, analisando friamente todas as variáveis de seus carros, seus adversários, as condições da pista e sempre pilotava arriscando apenas o necessário para atingir seus objetivos. Sua frieza é notória e a forma como encarava a competição o diferenciava dos demais. Enfrentou adversários de peso que jamais se sagraram campeões, como Clay Regazzoni, Jack Ickx, Carlos Reutemann, John Watson.
James Hunt foi campeão sim, mas eu o colocaria na condição de "campeões oportunos", da mesma forma que coloco Keke Rosberg,e mesmo Alan Jones, ou seja, venceram, mas não convenceram. Volto a falar desses três oportunamente. Mario Andretti tinha a postura e a estatura de um campeão, mas seu título foi fruto de uma série de circunstâncias e da fraqueza estratégica (no momento da carreira) de seu companheiro Ronnie Peterson, mais veloz e talentoso. Como já estava na Lotus há algumas temporadas e Peterson regressava depois de desastradas tentativas de ser campeão pela Tyrrell e pela March, teve a preferência de Colin Chapman e o cavalheirismo de Peterson ajudou muito. Esse é um caso de falta de foco, talvez falta de "killer instinct", pois técnicamente era muito bom, apesar de suas dificuldades em acertar um carro de corrida. Gilles Villeneuve, também rápido e talentoso, tinha seu "calcanhar de aquiles", era incapaz de acertar um carro. O mesmo acontecia com outro piloto que eu gostava muito, Rene Arnoux. Diz a lenda que ele foi testar um carro da Renault e os mecânicos foram endurecendo as molas da suspensão progressivamente, e ele não notava a diferença no carro, sendo sempre agressivo e rápido, e incapaz de ajudar na parte técnica.
Nelson Piquet era o oposto disso. Com grande sensibilidade mecânica, sabia extrair o melhor do carro e explorar as nuances nos regulamentos para obter vantagens, mínimas ás vezes, mas que ao longo de 60 voltas de uma corrida representavam muito. Sempre foi irônico, brincalhão, mas determinado. Seu verdadeiro teste foi contra Nigel Mansell na equipe Willians. Nelson foi contratado pessoalmente por Frank Willians que o admirava muito. Mansell era o trapalhão que já estava na equipe e claramente segundo piloto. Veloz, mas nada técnico. Willians sofreu grave acidente de carro no sul da França antes da temporada começar em 1986, e Patrick Head seu sócio começou a mexer os pauzinhos dentro da equipe para favorecer Mansell, seu compatriota e camarada. Piquet acertava o carro e Mansell se beneficiava disso. Perderam o título de 1986 para a Mclaren do astuto Alain Prost por não terem jogo de equipe. Para 1987 Piquet jogou o jogo a seu favor, camuflando informações de Mansell, marcando pontos importantes, e ao perder velocidade depois de seu terrível acidente na curva Tamborello em Imola (a mesma que matou Ayrton Senna), soube ir fazendo resultados, pois Mansell tornou-se mais veloz naquele momento. No final do ano, Mansell sucumbiu psicologicamente á carga de Piquet e bateu nos treinos para o GP do Japão, ferindo-se, devido provavelemente á grande pressão exercida pelo brasileiro que o provocava velada e acintosamente. Mansell foi um exemplo de campeão com méritos (seu título em 1992 foi impecável, mas ele tinhja de longe o melhor equipamento), mas sua estrutura mental era muito frágil. Talvez tenha sido mais veloz que possamos avaliar, porque era facilmente derrotado mentalmente.

Continua

Um comentário:

Paulo disse...

Muito feliz sua observação sobre os campeões oportunistas. Lembro de Alan Jones, campeão de 1980: era ótimo piloto mas no mínimo estava um degrau abaixo de Carlos Reutemann, seu companheiro de equipe desprezado dentro da Williams. Lembro também de Jody Scheckter, Damon Hill e Jacques Villeneuve - outros que demonstraram ter mais carro do que talento quando foram campeões.