sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

E A SAGA CONTINUA, OU COMO EU QUASE ME TORNEI UM ENZO FERRARI




Bom, de decepção em decepção eu ia levando a minha (quase) carreira automobilística. Já estávamos em pleno 1984 ( uia....me lembro de George Orwell e o Big Brother), eu havia feito umas cinco ou seis corridinhas de Formula Ford bem mequetrefe, babado baldes em corridas alheias, ou seja, estava sempre sapeando pelos circuitos ingleses. Na temporada, de março a outubro, tem corridas em quase todos os circuitos, quase todos os finais de semana! É uma overdose boa, para os doidos como eu. Um final de semana eu ia a Brands Hatch (pertinho), no outro convencia um amigo e lá íamos para Thruxton, um pouco mais longe. Dava na telha, e lá estava eu em Silverstone, ou Snetterton. Via corridas de Formula Ford, carros saloon, prototipos, Lotus Seven, Catherhan, Formula Libre, Formula 3, Formula 2, o escambau. Conhecia os fiscais de pistas, os porteiros, os engraxates dos pilotos. Lia a "Autosport" de cabo a rabo na quarta feira mesmo, sendo que ela ia para as bancas nas quintas.
Numa destas quartas feiras, fazendo um balanço de minha quase vida de piloto, meio chateado, vi um anúncio pequeno, na seção de classificados da "Autosport". O anúncio era sobre a venda de uma fábrica de carros de corrida. Uma fábrica inteirinha! Nem mais e nem menos. Brasileiro, cavador, sonhador, quixotesco, cara-de-pau por excelência, resolvi dar uma ligadinha. O anúncio não especificava qual fábrica, nada. Estávamos na era do pré-e mail, portanto tinha que ser no telefone mesmo. Ligo. Atendem. Um sotaque estranho, do norte da Inglaterra. Fanho, o lazarento. Explico que havia lido o anúncio e queria saber do que se tratava, exatamente. O cara me disse, é uma fábrica de carros de Formula Ford, produzimos os modelos 1600 e 2000 (super ford, com asas e slicks). Qual fábrica? O sujeito me pediu o telefone, para retornar. Passei o número, e aguardei. Dito e feito, minutos depois o fanho na linha. Eu havia falado meu nome para ele, ele pediu para soletrar, e acho que pensou que eu estivesse de brincadeira, quando cheguei no FI RI PÓLL RI. Enfim, a fábrica era a Delta, eles tinham até ganho um campeonato europeu de Formula Ford 2000 alguns anos antes e o projeto de ambos os modelos era do Patrick Head! Nossa, o próprio, sócio de Frank Williams e muito competente Patrick Head. O problema é que estávamos em 84 e os projetos eram de 77 mais ou menos. Não houve evolução ou desenvolvimento. E o preço? O cara pigarreou, enrolou e me disse, entrego tudo, os moldes, os gabaritos, um monte de peças por dez mil libras. Fiquei besta. Dez mil libras? Poxa, para fazer uma boa temporada na Formula Ford numa equipe de ponta, tipo Van Diemenn, custava cerca de vinte a vinte e cinco mil libras, naquela época. Achei barato, afinal teria uma fábrica só para mim! Minha doida imaginação de espanhol misturado com italiano, mais a veia de escritor começou a viajar, e viajar e viajar.....
Marquei de ir conhecer a fábrica no sábado. Já se passaram vinte e cinco anos, portanto, não me perguntem o nome da cidade, esqueci. Também teria que tirar a fábrica de lá, pois o contrato de aluguel já vencera havia muito tempo. Bom, fui até lá e o que meus olhos viram, foi desolador: pouco mais que um estábulo (sem cavalos), com um monte de sucata, os gabaritos, as formas para as carrocerias em fibra de vidro, um pequeno cubículo denominado "Sala de engenharia", com uma prancheta velha e inútil, alguns blocos de motores, uns velhos e amarelados posters na parede. O problema é que sonhadores como eu, jamais enxergam com os olhos. O meu coração viu o embrião de uma grande fábrica, que futuramente iria produzir Formulas 3, quem sabe até, um Formula ! É eu sei, menos, Cezar, mas eu estava meio ferrado, sem muitos balões para me pendurar (e vocês pensam que o padre foi original! - eu sempre tive balões imaginários dentro de minha cabeça - só dentro dela, felizmente).
Enfim, volta a Londres, agendo uma visita ao meu gerente de banco, que falou, sem problemas, consigo te arrumar umas dez mil libras emprestadas. Cazzo! Eu tinha um bom emprego, vivia fazendo bicos, era espartano em meus modos de viver. Bom, comecei a "ciscar", a ler, a pesquisar. Tenho até hoje um monte de livros sobre Formula Ford, preparação, história, isso tudo. Conclui que precisaria de um novo projeto. O Patrick Head estava fora de cogitação, parece que na época que ele desenhou os Deltas, era meio sócio da empresa. Lembrei-me que eu conhecia um projetista de Formula 1, muito superficialmente, mas que admirava demais o cabloco. Consegui seu telefone com algum amigo em comum, e na maior cara-de-pau, liguei para o Ricardo Divilla! Acho que na época ele estava morando na França. Me atendeu na maior gentileza, com certeza ele não vai se recordar deste obscuro episódio, lhe expliquei o que tinha em mente, e ele me disse: é possível fazer um projeto novo sim, mas isso custa uns quinze a vinte mil libras. Agradeci a cortesia e comecei a preparar meu "Plano de Negócios". Não dava pé. Teria que comprar a fábrica, desenvolver um novo carro, construí-lo, colocá-lo para correr e só então, caso os resultados fossem bons, vender exemplares. Precisaria vender uns vinte chassis para recuperar o investimento inicial. Pensei, analisei, sonhei, e finalmente, percebi que se eu não conseguia dinheiro nem para correr com meu velho chassis, não seria capaz de captar tanta grana assim. Fiquei triste, mas telefonei para o sujeito dizendo que não iria mais comprar sua fábrica. E assim, o novo Enzo Ferrari, ou Ross Brawn tupiniquim, cessou sua quase aventura.
Nessa época eu já possuia o meu chassis Royalle, e comecei a me preparar para alinha-lo no maior número de corridas possível, para obter experiência. Mas ainda faltava um pouco de grana, portanto, comecei a "caçar" bicos de final de semana para me preparar para o ano de 1985. Mas ainda em 1984, algo de bom, muito bom, viria a acontecer. No próximo episódio, caso vocês continuarem a me aturar!

7 comentários:

Speeder_76 disse...

Uau! Fittipaldi construtor. Belo capítulo, sem dúvida. Naquele tempo era de doidos aparecer uma coisas dessas. Ver-te como um Ross Brawn ou um Enzo Ferrari não seria uma má ideia... e ainda por cima foste falar com o mítico Ricardo Divila! Nada mau.

Espero atentamente pelos próximos capitulos, caro Cézar. Valeu!

Marcos Antônio Filho disse...

que doidera Cezar vc quase teve uma equipe! putz, pena que a grana faltou...Poxa um carro feito pelo o Ricardo Divilla!rsrsrs

Irineu disse...

A gente atura, claro! O que não dá para aturar é a periodicidade da saga. Muito espaçados os posts... he he he.

Rui Amaral Lemos Jr disse...

Ótimo !!! Ainda bem que eu não estava por lá, hoje ou seriamos campeões do mundo ou refugiados em Uganda.

Paula disse...

Amigo Cezar, estamos aguardando ansiosamente os proximos capitulos.

Willian Ceolin disse...

Realmente outro capítulo fascinante. Muito legal compartilhar essas histórias com a gente.

Abraço!

brasil disse...

Massa...
Leio todos os posts, mas guardei uns maiores (esse e o em homenagem ao Emerson, figura que nós mais jovens conhecemos muito pouco) pra ler com calma e tempo, e valeu a pena.
O seu post sobre a Fórmula VE fez com que eu e um amigo viajássemos nessa de correr em monopostos baratos e brincar de piloto...Senna por um dia, sei lá.
Também na espera pelos próximos capítulos.