sábado, 9 de maio de 2009

SÁBADO: UMA CLASSIFICAÇÃO E UMA CORRIDINHA.


Palmas para o Jenson Button que tirou a pole da cartola nos últimos segundos do treino, deixando um visivemente abatido Rubinho em sua sombra, mais uma vez. Palmas para Felipe Massa que vem trabalhando duro e levou a Ferrari à segunda fila ao lado de Barrichello, enquanto seu badalado companheiro de equipe, Raikkonen nem passava para o Q2. Palmas para Vettel que mostra mais uma vez do que é capaz ao colocar a RBR na primeira fila ao lado de Button, enquanto seu papudo "companheiro" Webber larga em quinto. A corrida vai ser longa, dificil e ultrapassagens geralmente são raras neste travado circuito. Alonso larga em oitavo, as Toyotas em sexto e sétimo, o "rei das sextas" Rosberg em nono e Kubica fechando o primeiro grupo. Noto uma certa complacência da Globo com Nelsinho, elogiando a "melhor posição de largada do ano" - grande porcaria um 12 º lugar na grelha! Pior está Hamilton em 14º, mas este ainda tem muito crédito no banco, seu companheiro Kovalainem, 18º, bem menos.
A comparar com a corrida da GP2 o Grande Prêmio tem tudo para ser chato, tomara que eu esteja errado, como quase sempre! Nesta, nosso novo "salvador da pátria" Lucas di Grassi, decepcionou e foi protagonista de um acidente bizarro com o português Alvaro Parente que vinha fazendo uma corrida honesta. A prova foi vencida de ponta a ponta por Roman Grosjean, supostamente o maior adversário de Lucas no cockpit em breve vago de Nelsinho Piquet na equipe Renault. Outros brasileiros, Diego Nunes começou bem e foi perdendo terreno, Alberto Valério e Luiz Razia estão queimando preciosos euros de papais e patrocinadores em vão. Não me acusem de ser demasiadamente duro, mas quando vejo um grid inexpressivo desses, com chineses, russos, mexicanos, todos com muita tradição no automobilismo, e essa molecada brasileira lutando pelo 16º ou 17º lugares na corrida, me dá realmente saudades....

sexta-feira, 8 de maio de 2009

VELHA INFÂNCIA

Velha Infância

 

Você é assim 
Um sonho pra mim 
E quando eu não te vejo 

Eu penso em você 
Desde o amanhecer 
Até quando eu me deito 

Eu gosto de você 
E gosto de ficar com você 
Meu riso é tão feliz contigo 
O meu melhor amigo é o meu amor 

Pra gente cantar 
E a gente dançar 
E a gente não se cansa 

De ser criança 
Da gente brincar 
Da nossa velha infância 

 

Era uma vez a história de dois meninos. Um, negrinho e magrinho, lépido e feliz, pobre de dar dó, mas isso não lhe importava, pois na favela em que vivia havia um enorme campo de terra, onde todas as tardes ele era o rei. Jogava com os da sua idade, com os mais velhos, com os adultos e sua alegria era proporcional à sua habilidade com a bola nos pés. Muitos vaticinavam um futuro para ele como jogador de futebol profissional, mas sua sábia mãe sempre lhe dizia: um homem tem que ter profissão, e sem saber, parafraseava o grande Fernando Pessoa: eu sou da altura do que sonho. Paulo hoje vive em em Brasília, é soldado do corpo de bombeiros, casado, feliz, pai de um casal. Quando lhe perguntam se não se arrepende de não ter tentado a vida no futebol, responde rápido: não era para ser e sei que estou melhor assim. Sua infância foi feliz e sincera, sua vida é normal e saudável e ele nem de longe, desconfia da sábia decisão que tomou.

Outro menino chama-se Nelson e nunca teve opção. Filho de esportista multi-milionário, famoso e exigente, foi o escolhido entre outros seis irmãos para carregar o nome (pesado) do seu pai, e quiçá, repetir e superar seu destino vitorioso nas pistas de corrida da vida. Nunca teve uma infância propriamente dita, pois precisava comer pouco, manter-se em forma, treinar e correr de kart, viajar, sempre tendo em perspectiva quem ele era, e principalmente o que ele era! Sempre cercado de puxa-sacos, assessores, massagistas, pessoas lhe dizendo o que fazer e o que falar, sua biografia não poderia ser mais diferente da de seu pai, que sujou as mãos de graxa, dirigiu Kombis caindo aos pedaços pelas estradas esburacadas do Brasil, morou dentro de um velho caminhão na Europa para economizar e investir o pouco dinheiro de patrocínio na melhoria de seu carro de Formula 3. Ele, mal entrou na Formula 1 pela porta da frente de uma equipe grande, ganhou de presente um jatinho particular, mimo de seu orgulhoso pai.

O menino pobre curtiu sua dura infância. O menino rico, espera um dia poder desfrutar de uma, alguma infância. Por enquanto, arrasta-se de autódromo em autódromo como que para abreviar seu sofrimento, e a exemplo de outro menino, este o Jesus, no famoso poema do gênio Fernando Pessoa, “ fugiu do céu para brincar com ele:

Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se longe.”

 

Infância, velha ou nova, é tudo.

 

 

 

EFEMÉRIDES: 27 ANOS DA PARTIDA DE UM PILOTO




Vou me arriscar e cometer uma heresia: nunca fui grande fã do estilo de pilotagem do Gilles Villeneuve. Mas eu adorava o estilo do homem-Villeneuve: despojado, gentil, educado, família, doido de pedra e muito, muito auto-confiante. Tive a oportunidade de vê-lo correr ao vivo em algumas ocasiões, e sim, ele era muito veloz. Mas eu gosto de piloto que trate bem o carro, que o leve até o final da corrida, que seja campeão. Senna era veloz. Clark era veloz. Schumacher era veloz. E todos foram campeões. No entanto, havia algo emVilleneuve que me fazia gostar do lado moleque dele, inconsequente, arteiro. Histórias de um certo vôo de helicóptero na Itália á noite, quando nem habilitado ele era, apesar de inconsequentes, me causam admiração. Ele jamais desistia, e sua resiliência era uma de suas maiores qualidades. Mesmo assim, eu não o colocaria numa hipotética lista de 10 maiores pilotos que já vi pilotar. Rest in peace, Gilles!

O REI DA SEXTA FEIRA, AS POSTURAS DIFERENTES,AS INTERPRETAÇÕES SUBJETIVAS DEMAIS E ETC: BABOSEIRAS PRÉ-O-QUE-INTERESSA!




Bom, comecemos com o "rei" da sexta feira, Rosberguinho. Pode ser uma síndrome do "cavalo paraguayo falsificado", ou jogada de marketing, ou mesmo estratégia, mas o fato é que ser o mais rápido na sexta-feira não vale nada. De qualquer forma mantém a equipe Willians viva na mídia, ainda mais que fizeram dobradinha com o Nakajima. Eu costumava ter uma grande simpatia por Frank Willians, tenho até em algum lugar guardada, uma foto com ele, no começo dos anos 80 em Thruxton, eu fã e ele já dono de equipe consagrado, me atendeu com bastante disposição, tentei entabular uma conversa, mas o meu domínio do idioma inglês era sofrível na época. Depois disso, fiquei amigo (e cliente) do Tony Trimmer, piloto britânico e muito amigo de Frank, que me relatava os primeiros anos, a dureza, as contas atrasadas, a perda de Piers Courage. Willians deu a volta por cima em grande estilo, fez de sua equipe uma das mais poderosas e vitoriosas da história da Formula 1, mas nem sempre foi leal com os pilotos que lhe deram tanto. Começou com a sumária dispensa de Mansell após este ter sido campeão (finalmente) em 92. Depois Prost tampouco renovou, pois ele tinha Senna na alça de mira. Fez o mesmo com Damon Hill, não valorizando as conquistas dos pilotos, como que dizendo: campeões são os meus carros, vocês são apenas "chauffeurs". Sei lá, a postura é dele, mas eu ainda acredito em lealdade. Perdi a simpatia pela equipe, pois perdi as referências. Respeito muito o Patrick Head, mas acho que pilotos ainda fazem a diferença e não vejo no jovem Rosberg nenhuma chama de brilho, como por exemplo podemos notar em Vettel, Hamilton e outros da mesma geração.
Duas entrevistas me chamaram a atenção no site da Autosport: uma a já comentada de Nelsinho Piquet, que dá explicações demais e acelera de menos. A outra, um show de auto-confiança por parte do jovem Sebastian Vettel que se coloca sem pudor e sem medo de ser feliz na luta pelo título. Cáspite! Um jovem de apenas vinte e um anos declarar que se considera apto para ser campeão mundial de Formula 1 soaria como fanfarronice, certo? Errado se o autor da declaração for o nosso jovem teutônico. Com pouco mais de uma temporada completa, ele já provou do que é capaz, mas acima de tudo, sua atitude demonstra confiança e coragem.
Quanto aos treinos em si, a propalada recuperação das grandes para a temporada européia ainda não se caracterizou. Mas, um certo Juan Manuel Fangio, que sabia uma coisa ou duas a respeito de automobilismo costumava dizer: "carreras son carreras". Eu assino embaixo, então esperemos pelo domingo!

CURTINHA (DE VERDADE): A ENTREVISTA DE NELSINHO PIQUET Á AUTOSPORT


Poderia resumir a entrevista do piloto teuto-brasileiro com uma única frase: a arte de não dizer nada. Mais curto que isso, difícil.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

SORTIDAS, ENSAIO PSICO-FILOSÓFICO SOBRE RUBENS BARRICHELLO.




Bom, eu nem queria falar mais sobre o Barrichello, mas acho que vou dar umas pitacas para tentar entender isso. Um garoto de classe média alta descobre um esporte, um hobby, e mais, descobre ter "jeito" para a coisa. Sua carreira no kart começa meio na brincadeira mas vai ficando séria a medida que tem que enfrentar um outro garoto, um pouco mais velho, com um sobrenome famoso e uma estrutura fabulosa. Christian Fittipaldi, o outro menino, leva o peso do nome nos ombros e as expectativas de muita gente junto. O outro rapazola, Rubinho, percebe que pode vencer Christian e suas carreiras desenvolvem uma curiosa relação, um servindo de escada ao outro. Christian, mais velho parte para os carros mais cedo, Barrichello feito famoso por frequentemente derrotar o herdeiro do clã célebre, estréia na Formula Ford brasileira um ano depois e mostra serviço. Vence também em sua estréia na Formula 3 sul americana, então mais forte que hoje com os argentinos e veteranos e parte para a Europa, Itália, onde uma carreira internacional bem gerenciada tem início. Sempre cercado de assessores, massagistas, aspones, esse outrora humilde menino vai subindo meteóricamente até atingir a categoria máxima em 1993, numa equipe modesta, a Jordan, mas de boa estrutura. Faz um razoável primeiro mundial, com destaque para a corrida de Donnington (aquela em que Senna "jantou" cinco carros na primeira volta debaixo de chuva), até a estréia de um incômodo companheiro, Eddie Irvine. Nos anos seguintes, tem temporadas regulares e num determinado momento transfere-se para a nova equipe Stewart, com regalias de primeiro piloto. Mas antes disso, um acontecimento que viria marcar sua vida e sua carreira: o falecimento de Ayrton Senna,  ídolo-mor da torcida brasileira, que subitamente viu-se privada de um grande nome. Assessores, gente de marketing e puxa-sacos agarram a chance e quiseram fazer do ainda iniciante piloto o "sucessor". Este, inocente e falastrão, comprou a idéia.
A coisa começou a desandar um pouco nesse ponto, pois sempre que criamos algum tipo de expectativa sobre algo ou alguèm, e não conseguimos atingir o nível proposto, fica um "que" de frustração, é inevitável. Anos na Stewart apenas para ter seu companheiro Herbert vencer a única prova da equipe na Alemanha. Mais uma fase difícil e é o escolhido para ser o companheiro de Schumacher na Ferrari, substituindo o volúvel Irvine. Podia ficar quietinho, fazer seu trabalho, concentrar-se melhor e aproveitar as oportunidades, mas não: boca grande (coitadinho do jacaré....) se disse igual primeiro piloto na Ferrari, se auto proclamou tão veloz quanto o queixudo germânico, errôneamente criando expectativas irreais e, o que se viu foi uma frustração após a outra, culminando com aquela famosa corrida na Áustria em 02 em que foi obrigado a dar passagem ao primeiro piloto e o fez de maneira tão explícita que gerou até teorias de conspiração.
Seis anos de Ferrari trouxeram apenas (em termos) dois vice-campeonatos e 9 vitórias. Transfere-se para a equipe Honda em 2006 apenas para levar uma lavada de seu companheiro Button, dando mil desculpas a respeito de não se adaptar ao carro. 2007 foi um ano para se esquecer e 2008 parecia ser  o último realmente, com recorde de participações e uma saída honrosa. Mas, quiseram os caprichosos deuses do destino, que uma pequena bala ainda restasse no tambor do velho e enferrujado revolver.....e ele renova com a agora equipe Brawn, contra todos os prognósticos. O mais surpreendente ainda estava por vir: considerada a equipe mais modesta, a provável "rabeira" da nova Formula 1, o projeto se revela um vencedor, infelizmente nas mãos de seu companheiro, o renascido Button. Parole, parole, parole. Palavras ao vento, desculpas. Eu quero que o Rubinho dê a volta por cima, vença todas as provas até o final do ano, mostre aos seus críticos que estão errados e que ele realmente é um grande piloto. Mas ele tem que derrotar um inimigo poderoso: ele mesmo e sua peculiar personalidade macunaímica! Nós brasileiros, outrora acometidos pelo complexo de vira-latas, fomos resgatados do limbo do ranking mundial da baixa estima por gente como Pelé, Maria Ester Bueno, Abilio Couto (falo deste num de meus próximos posts), Éder Jofre, Ademar Ferreira da Silva, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Guga, os meninos do volei.....agora embalamos e vamos nós!
Rubinho não pode ser tão bi polar assim: tem que encarar os fatos de frente e vencer. Os tempos de Jeca Tatu de atletas brasileiros são coisa do passado, eu quero é o futuro!

CURTAS

Rapaz, ficamos fora da net por dois ou três dias e tantas coisas acontecem! Êta mundo véio sem portera!, como diriam os mais antigos de onde venho. Ainda estou enfretando problemas com o meu proveder de internet, mas vamos levando.
GP da Espanha chegando, faremos a nossa já tradicional e furadíssima previsão! Começo da temporada da GP 2, os esperançosos jovens que esperam estar na Formula 1 daqui a alguns anos. Tivemos uma vitória do Il dottore na Moto GP. Stock cars em Brasília. A infeliz brincadeira da Hortência, zombando do Rubinho. Todos sabem que eu defendo o Rubinho, pois ninguém disputa o número de corridas que ele disputou (ninguém mesmo, literalmente) sem ter talento. Outra coisa legal: o número de pessoas acompanhando o blog tem subido bastante, o que vai determinando que linha devo seguir, pois tenho noção dos posts que têm mais audiência. O Bruno do blog F1 data base, me prestou uma homenagem, adoro os posts dele resgatando histórias de uma época da Formula 1 que me parece infinitamente mais romântica que hoje.
Também fui convidado a participar do pod cast do buteco, pelo Stenio, e é claro, aceitei. Maiores detalhes depois, será uma nova experiência para mim.
Abraços e até mais.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

PETIT PROBLEM - SMALL PROBLEMS - PEQUENOS PROBLEMAS

Pessoal adoro a internet, mas quando esta dita cuja resolve dar pau.....vixe....peço desculpas aos (poucos mas preciosos) amigos que seguem meu blog, o meu compromisso é atualizá-lo diariamente, o que não tem sido possível nos últimos 3 dias. Espero que a solução para os problemas técnicos que tive com meu provedor estejam solucionados hoje a noite, e agradeço pela paciência de todos. Abraços e até breve.

sábado, 2 de maio de 2009

15 ANOS SEM SENNA: A CONSOLIDAÇÃO DO MITO



Com os testes realizados de maneira bastante satisfatória Ayrton Senna era um dos favoritos ao "draft" de novos pilotos para a Formula 1 naquele início de 1984, pois reunia talento, velocidade, carisma e valor comercial. Os grandes nomes da Formula 1 da época eram Nelson Piquet, já bi campeão, Niki Lauda, também bi campeão que havia abandonado o automobilismo para construir sua empresa aérea e depois retornou à bordo da Mclaren, Alain Prost, velocíssimo francês mas àquela altura ainda sem títulos, Keke Rosberg, rápido, marketeiro e já campeão em 82, e num plano um pouco inferior, Nigel Mansell (que á rigor não era levado muito a sério naquela altura como piloto postulante a um título mundial), Elio de Angelis, Rene Arnoux, Jacques Lafitte. Uma mescla de velha e nova gerações, e a chegada de Senna numa equipe média/pequena lhe oferecia a oportunidade ideal de aprender a lidar com as características da categoria sem muitas pressões. Senna passou direto das corridas de Formula 3, cujos carros tinham em média 165 hp, com corridas de no máximo 30 minutos de duração, para bólidos com mais de 500 hp, e corridas que beiravam as duas horas de duração.
O companheiro de Senna era o simpático venezuelano, ex-campeão mundial de motociclismo, Johnny Ceccoto, que não lhe faria frente, mas tinha já um ano de Formula 1. Senna testou um pouco no inverno europeu, e quando as equipes (a maioria delas) vieram ao Rio de Janeiro em janeiro para testar, Senna atraiu grande curiosidade da mídia nacional, mesmo com Emerson Fittipaldi testando um carro da fraquíssima equipe Spirit - que não resultou em nada. Eu estive com amigos no autódromo de Jacarepaguá para assistir aos testes, e fui com dois amigos cariocas. Eles se impressionaram a princípio com o fato de que ao apresentar minha carteira inglesa de piloto, nos foi permitido entrar no paddock. A admiração deles por mim aumentou, quando ao passarmos defronte aos boxes da Toleman, alguém gritou meu nome, e ao virar-me, era o próprio Ayrton, de macacões arriados, suado e tomando um pouco de água. Me dirigi a ele, pulando uma cordinha e apresentando-o aos meus amigos, que não se cansavam de repetir a "experiência" horas depois para outros amigos. Batemos um papo rápido e me lembro de desejar-lhe boa sorte e cheio de confiança afirmar: dentro de alguns anos estarei aqui também. Não era para ser, mas Ayrton estava prestes a escrever páginas inesquecíveis da história da Formula 1 e do automobilismo brasileiro.
O resto, como dizem, é história. Em seu primeiro ano ele já se destacou como um piloto acima da média, inclusive com aquele histórico segundo lugar em Mônaco. No ano seguinte transferiu-se para a equipe Lotus, ao lado de Elio de Angelis, pilotando em minha opinião o carro mais lindo de toda a história da Formula 1, aquela Lotus Renaut negra e dourada, contrastando bem com seu característico capacete amarelo. Lembro-me de uma corrida em Brands Hatch, em 85, eu competia na Formula Ford, o campeonato era patrocinado pela John Player, a mesma tabacaria que patrocinava a equipe Lotus, e além de diversas provas de categorias diferentes, a atração do evento seria uma tentativa de quebra do recorde do circuito Indy de Brands Hatch por Senna e sua Lotus dourada. Lembro-me dele ter vindo, cercado de jornalistas e puxa sacos, colocado o macacão, dado umas duas ou três voltas de aquecimento, o autódromo lotado, parou nos boxes (onde eu me encontrava também, na condição de competidor) ajustado algumas coisas no carro e ao voltar a pista, o locutor oficial de Brands, Brian Jones narrava entusiasticamente a volta da solitária Lotus negra fazendo aquele ballet bonito na aproximação das curvas. Logo na segunda volta ele pulverizou o recorde anterior levando a platéia à loucura. Foi realmente de arrepiar. Depois ele recolheu o carro aos boxes, deu algumas entrevistas e ao despedir-se me avistou ali no meio do bolo e veio me dar um aperto de mãos. Aquela foi a última vez que nos vimos pessoalmente, e ele ainda estava por estabelecer todos os seus recordes.
Ayrton tinha uma obcessão por velocidade, por atingir limites que mesmo em níveis costumeiramente elevados impressionavam. Eu vi muitos pilotos e me admirei com a qualidade técnica de vários. Mas em uma única volta lançada, aquela volta em Brands Hatch, há muitos e muitos anos atrás permanece em minha memória como a volta mais perfeita que tive a oportunidade de ver. Grande Ayrton!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

15 ANOS SEM SENNA: 1983 O ANO DA PRÉ-CONSTRUÇÃO DO MITO.



O Brasil tinha naquele ano de 1983 um bi campeão mundial de Formula 1, Emerson Fittipaldi, numa entre-safra de carreira, tendo voltado a competir em super karts e ensaindo uma ida aos EUA, e um campeão mundial em atividade. Havia no entanto, um problema: ao mesmo tempo em que Fittipaldi era carismático e atencioso com a imprensa, Piquet, tímido pessoalmente e ainda ressentido com as injustiças que julgava ter sido vítima principalmente pela imprensa esportiva paulista, era arredio e pouco "comercializável" em termos de marketing de massa. A Rede Globo de Televisão havia abandonado as transmissões das corridas de Formula 1 no ano de 1981, mas com o campeonato de Piquet (transmitido pela Band) voltou a se interessar no potencial comercial da categoria e precisava desesperadamente de um ídolo, um "gancho" para as cotas de patrocínio cada vez mais elevadas, cortesia da visão e da ganância do senhor Bernard Ecclestone.
Os radares do escritório da Rede Globo em Londres, capitaneada por Jaime Brito, haviam detectado os resultados de um jovem piloto paulista nas categorias de base. Outros brasileiros já na Formula 1, Chico Serra e Raul Boesel não despertavam muito o entusiasmo da emissora, apesar de Boesel bem patrocinado por empresas estatais (Embratur e Café do Brasil) ter boas conexões pessoais com o doutor Roberto Marinho - por ter sido ginete de sucesso.
Senna assinou contrato para disputar o campeonato britânico de Formula 3 pela melhor equipe da época, West Surrey Racing, comandada por Dick Bennets, um neozelandês taciturno e objetivo. Sua concorrência era pífia (claro que ele nada tinha a ver com isso, o problema era o alto custo da temporada e o surgimento de campeonatos alternativos de Formula 3 bem mais econômicos, como o europeu, o italiano e o alemão). O único piloto que poderia lhe fazer frente no papel e subsequente nas pistas era o britânico Martin Brundle, que jamais havia passado pelo kartismo, tendo começado a competir em algo parecido com o rally cross, depois com carros de turismo (foi companheiro de Sir Stirling Moss e muito elogiado por este em 80).
Pois bem, pela primeira vez tendo tempo hábil para se preparar, Senna não decepcionou, longe disso: venceu as primeiras provas da temporada, disparando na classificação. A bem da verdade ele fez a sua parte, mas o campeonato em si era bem fraco, com a excessão de Brundle e do canadense Allen Berg (com passagem discretissima pela Formula 1 pela Osella anos mais tarde). Eu havia dado uma entrevista ao programa Esporte Espetacular (estava iniciando minha carreira na Formula Ford) para o Luiz Fernando da Silva Pinto, e desenvolvi uma amizade com o pessoal da Globo em Londres. Um belo dia em julho, senão me engano, recebo um telefonema do Reginaldo Leme me perguntando se poderia fazer-lhe um favor. Eles estavam temporariamente sem motorista e precisavam ir a Silverstone entrevistar o Senna. Claro que concordei e no outro dia logo de manhã, peguei a Van da emissora e fomos, Reginaldo, Galvão Bueno (de quem eu jamais havia ouvido falar, pois já estava fora do Brasil há três anos) o cinegrafista e o "cable-man" meu camarada Silvio Motta. A conversa foi legal - claro que quem mais falou, adivinhem, foi o papagaio Galvão.
Chegamos a Silverstone, era um sábado se não me falha a memória, e o Senna já estava treinando com o Ralt branquinho da West Surrey. Quando ele fez uma pausa, veio simpático falar com a gente, e eu fiquei no fundo, batendo papo com o Maurício Gugemin, enquanto Senna era entrevistado. Àquela época não havia internet, as comunicações eram muito difíceis e o Reginaldo sugeriu que eu ficasse ali atrás como "papagaio de pirata" para que meus familiares no Brasil pudessem matar um pouco as saudades.
No final daquele ano Senna foi convidado a testar um carro da Willians e reza a lenda que ele foi mais rápido que ambos, Rosberg e Laffite os pilotos titulares da época. Sei que ele negociou com outras equipes, houve a polêmica do suposto veto de Piquet na Brabham e a eventual assinatura de contrato com a equipe Toleman. A Rede Globo estava feliz, porque apesar de Nelson Piquet ter conquistado o bi campeonato com a Brabham, as apostas da emissora do Jardim Botânico eram todas naquele rapaz tímido e chamado já naquela época pelos ingleses com "magic Senna".