terça-feira, 5 de junho de 2012

REPOST: A CORRIDA NO CÉU




Mesmo sendo Deus, Ele se aborrece ás vezes. O universo em toda sua grandeza estava chato demais para entretê-lo. Pensou, pensou, coçou a cabeça e chamou um de seus

auxiliares, o indefectível São Pedro.

“Pedro, aproxime-se. Que marasmo está este Céu. Quero que organize algo para me entreter”.

“Mas senhor... o que posso fazer para ajudá-lo? Já organizamos safáris, olimpíadas, torneios circenses. Trouxemos os melhores cantores clássicos, de ópera, bailarinos, até mesmo algumas escolas de samba. Diga-me Senhor... o que falta?”

“Pedro, você é pago para isso. Vamos, se vire. Com tantos problemas na Terra, estou mesmo precisando de algo que me entretenha.”

Pedro ia mencionar que os seus salários jamais haviam sido pagos, mas como no Céu não há Justiça do Trabalho ou coisa similar, preferiu calar-se. Havia os benefícios que talvez não encontrasse em outro emprego. Enfim, Pedro pôs-se a pensar. Nesse momento passou por ele Cristovão, santo bonachão e que sempre flanava perto da cantina do Céu, pois era comilão e sabia que coisas boas estavam saindo do forno a qualquer hora.

“Cris venha aqui. O Mestre está aborrecido e isto não é bom. Você bem sabe que quando ele se zanga quem paga o pato somos nós.”

“Não me diga, Pedrão. Não me diga. Em que posso ajudá-lo?”

“Ele me pediu para organizar algo para distraí-lo, entretê-lo, mas estou sem idéias. O que sugere?

“Hummm. Deixe-me pensar. O duro é que quando estou de estômago vazio, penso muito mal” a frase saiu com um tímido sorrisinho de canto de boca. Percebendo a deixa, Pedro chamou o amigo e colega de Santidade para dentro da cafeteria. Pediram cafés fumegantes e bolinhos divinos (não poderiam ser diferentes). O apetite de Cristovão era lendário e ele não se fez de rogado: traçou dúzias de iguarias e bebeu jarras de café e chocolate quente, deixando mesmo um pouco a escorrer pelas longas barbas grisalhas.

“Já sei: tenho uma idéia!”

“Diga logo, estou ansioso,” retrucou o pobre Pedro. Cristovão ainda ordenou uns quitutes á titulo de “saideiras”, antes de limpar a garganta e dizer:

“Vamos organizar uma corrida de carros aqui no Céu. Um autêntico Grande Prêmio, como nunca se viu na Terra!”

“Sei não. Acha uma boa idéia? Não é perigoso?”

“Perigoso, Pedro? Esqueceu que aqui é o Céu? E que muitos dos pilotos que aqui estão, correram e pagaram os riscos com suas respectivas vidas?”

“Olha. Eu não entendo muito disso. Você pode me ajudar? Mas antes vou perguntar ao Senhor, o que ele pensa da idéia. Venha comigo.”

Entraram nos aposentos divinos com muito cuidado, como sempre faziam. Uns anjos dormitavam e nem notaram a passagem dos dois Santos. Deus cochilava, com uma copia gasta da “Divina Comedia” de Dante, que ele lera e relera milhares de vezes. Um conservador, esse Deus.

“Diga-me Pedro. Olá Cristovão. A propósito, você esta engordando. Têm algo em mente?”

Pedro adiantou-se, sempre tinha a sensação de perder a fala ao dirigir-se ao Mestre. Por mais eternidades que passasse servindo-O, isso não mudava.

“Sim, Senhor. Cristóvão sugeriu uma corrida de carros. Temos os melhores pilotos aqui em cima, é só uma questão de ajustar detalhes.”

“Esplêndida idéia! Mas preste atenção: não quero o Balestre envolvido nisso. Sei que ele subiu há pouco, deixe aquele francês narigudo fora disso.”

“Ótimo Senhor. Organizaremos tudo.”

“Outra coisa. Quero a corrida numa reprodução fiel do circuito de Nurburgring. E quero todos os pilotos com um mesmo modelo de carro. Pode ser o Maserati 250F. Chamem-me de saudosista se quiserem.”

“Sim Senhor.”

***



Pedro contou com a colaboração de Cristovão e de outros Santos que gostavam de corridas. No Céu, as dimensões de tempo são diferentes, então tudo pode ser feito rapidamente. Começaram a convocar os pilotos. Nuvolari foi logo lembrado e ficou muito feliz, pois estava a muito coçando o saco e bebendo Lambrusco. O pequeno mantuano se dispôs a ajudar a convidar os colegas. Fangio foi facilmente convencido, assim como Ascari. Farina se apresentou, e sendo advogado queria saber do regulamento aprovado. Fagiolli e Rosier ficaram excitados, mas Cristovão lhes disse que apenas campeões mundiais poderiam participar, eles ficariam na reserva. Indignados, pois achavam que as regras terrenas eram injustas, mesmo assim, se ofereceram para colaborar. Gonzáles que ainda não morreu, recebeu uma mensagem num sonho, em sua Argentina e ficou com vontade de morrer, mas também não foi campeão, então ficou na vontade mesmo. Hawthorn, que bebericava o chá das cinco, ficou muito feliz em poder participar. Trintgnant, Musso e Bira mordiam os lábios de vontade, mas tampouco foram campeões. Moss foi outro que ainda não morreu e ficou sabendo da tal corrida. Foi á sua muito britânica paróquia conversar com Deus em particular e pediu para subir. Não foi atendido, pois ainda tem um tempinho por aqui, segundo o Manda-Chuva. (não, São Pedro não é o verdadeiro Manda-Chuva, ele apenas é o encarregado do departamento Hídrico do Céu).

O alvoroço era geral. O Príncipe Rainier e a belíssima Grace Kelly, ou princesa Grace se ofereceram para entregar o Troféu. Phil Hill que morreu a pouco mais de um ano, ainda perdido pelos labirintos do Céu, modestamente declinou a oferta, dizendo ter sido campeão por obra e graça da morte de seu então companheiro Von Tripps. Este, entre muitos goles de cerveja da Bavária, se disse lisonjeado, mas fora de forma. Acho que não queria encontrar-se na pista com Clark, mais uma vez. Jim Clark, pastoreando ovelhas e feliz com isso, ficou surpreso pelo convite. Em sua modéstia, apurada do outro lado, achou que não merecia ser convidado! Bruce McLaren andou sendo cogitado, afinal foi vice, mas disse que prefere ficar nos boxes. Brabham está firme na Austrália, perdeu o trem para cima algumas vezes e não tem pressa em chegar. Graham Hill, fazendo imitações para um canal de TV no Céu, adorando sua nova profissão, ficou muito feliz com o convite. John Surtees quis trocar de lugar com seu filho Henry, mas Deus não concordou. O menino vai assistir dos boxes, no entanto. Bandini e Pedro Rodrigues se ofereceram para testar e aquecer os carros e Jô Siffert quer trabalhar nos boxes. Scarfiotti vai ser bandeirinha, e Rindt achou a idéia ótima, está louco para correr. Denny Hulme não tem certeza, mas como campeão vai participar. Sente que McLaren merecia mais e sente saudades de Brabham. Bom sujeito o urso. Johnny Servoz Gavin e Lucien Bianchi querem ajudar na cronometragem assim como Jô Bonnier.

Clay Regazzoni anda furioso por aqueles três pontinhos que o privaram de ser campeão em 1974, mas disse que está disposto a ajudar. François Cevert e Elio de Angelis vão tocar piano na recepção depois da corrida e ambos deixam as mulheres do Céu em polvorosa! Mark Donohue é outro que quer ajudar de qualquer maneira, assim como Peter Revson, bronzeado como se estivesse em férias eternas no Hawai. Mike Hailwood brinca com todos e sua careca reluzente é motivo de piadas. Ronnie Peterson anda nervoso de um lado para outro, desejando não ter sido tão cavalheiro em 1978, quando ajudou Andretti a ganhar um titulo que facilmente poderia ter sido seu. Carlos Pace está por ali também, cansado de não fazer nada no Céu, animado conversando com seus grandes amigos Luiz Antonio Grecco e Marivaldo Fernandes. James Hunt com uma latinha de cerveja (proibida no Céu) nas mãos chega de mansinho, com um sorriso largo no rosto bronzeado. Patrick Depailler e Tom Pryce, acompanhados de Roger Willianson, David Purley e Tony Brise querem ajudar também. Gilles Villeneuve chega meio avoado, querendo participar de qualquer jeito e fica feliz ao saber que alguns vice campeões serão convidados também. Didier Pironi se anima, também quer muito correr. Alboreto, também vice, fica feliz e quer uma oportunidade na corrida.

Neste momento, chega Ayrton Senna, ciente de que seu lugar na corrida está seguro, e torcendo para chover. Muitos outros pilotos estão ali, desde que os boatos sobre a prova se espalharam. No Céu tudo é possível e como num passe de mágica, uma perfeita replica do velho circuito de Nurburgring aparece. Lindo, limpinho, todas as guias pintadas, os boxes tinindo e os vinte Maseratis 250F, vermelhos, alinhados lado a lado. Cada um traz o nome de seu piloto na carenagem e a curiosidade da multidão que se aproxima é crescente.

A platéia é enorme e os pilotos vão ter oportunidade de treinar para se acostumar com os carros e com a pista. O carro numero 1 traz o nome de Fangio e ele conhece bem a maquina, já correu e venceu com uma. Nuvolari carrega o número dois e seu assento tem uma pequena almofada dada sua pequena estatura. O homenzinho é minúsculo, mas atrás de um volante transforma-se num gigante! Farina tem o três e Ascari o quatro. Sendo italiano já começa a reclamar de algo, mas eu me afasto pois estou curioso para ver o resto do grid. Hawthorn vai de cinco e o seis está com Phil Hill. O sete é de Clark e todos o olham com respeito; o oito pertence a Graham Hill. Denny Hulme traz o número nove pintado abaixo de seu nome e olha o carro com curiosidade. O dez é de Pelé, mas esse foi um erro, trocaram os esportes, as bolas, e depois de um bom sermão no Santo responsável pela mancada, apagaram o nome do “Rei” e colocaram o de Rindt. Onze foi para Hunt e doze vai para Senna. O treze que no Céu não quer dizer nada ficou para McLaren, quer preferia ficar como engenheiro de pista. Clay Regazzoni, muito animado vai alinhar com o numero catorze e o quinze será de Ronnie Peterson. Um eufórico Villeneuve recebe o dezesseis, e seu desafeto Pironi o dezessete. Na verdade, eles já fizeram as pazes faz tempo, um dos gêmeos de Didier chama-se Gilles. Alboreto é o dezoito e um surpreso de Angelis recebe o dezenove. O vinte fica para Depailler e ninguém reclama. Reservas Siffert, Rodriguez e Gunnar Nilsson, que chegou agora.

continua - Os treinos.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

REPOST: CONTINUANDO A SAGA



Amigos, eu fui mexer no vespeiro e agora saí picado! Comecei lá atrás uma despretensiosa seçãozinha “Cezar Fittipaldi – carreira de piloto na Inglaterra” onde narro minhas (des)venturas na Ilha de Sua Majestade, pelos anos 80, em busca de um lugar ao sol. Que fui fazer? Santo Deus, buscar o sol num lugar que só chove? Oras....

Bom, percebi que a seção estava engolindo o blog, e dei um tranco nela. Mandei largar de ser metida, ficar na sua, que o blog era para outras coisas: fazer amigos, palpitar, opinar, trocar experiências. Que esta seçãozinha não se metesse a besta comigo! Mas não tem jeito, volta e meia alguém me manda um e-mail reclamando da falta de atualização. O último foi o amigo André Canário, que cantou: poxa, Cezar, entro todos os dias no blog e nada de atualização!


Bem, bem, regressamos ao ano da glória de 1984 – título aliás do ótimo livro do George Orwell, que inspirou a expressão “Big Brother”. O Wham! Do George Michael e Andrew Ridgley estava surgindo com “Careless Whisper”, tínhamos Duran Duran, as lindas moçoilas do Bananarama, Frankie Goes to Hollywood, com Reflex, Sheena Easton. Muitas memórias. Frio, lareira, trabalhando em dois lugares. Dono de um carro de corrida, um trailler, dois motores, um monte de peças de reposição inúteis e pagando caro pelo privilégio de usar uma garagem dentro do circuito de Brands Hatch, a cerca de 35 minutos de carro de minha casa.

Resolvi procurar outro lugar e como sempre, nos classificados da Autosport achei. Que azar! O cara se chamava Keith alguma coisa, tinha uma oficina num bairro do sul de Londres que se chama Elephant & Castle. Cara de pinguço, oficina grande e desorganizada, no entanto tinha ótimos resultados: havia feito o “running” (preparação) de pilotos como Rob Wilson (neozelandês gente boa, mistura de músico de rock e piloto, que chegou a Formula 2) e Johnny Dumfries, além de outros menos conhecidos. Combinei com ele que ele faria a manutenção do carro, além de abrir e verificar o estado dos meus dois motores. Transportei toda a minha tralha para a oficina do cara e fiquei muito feliz, pois o acordo financeiro era bem razoável.

Foi aí que começou meu calvário. Eu ligava toda semana, com esperanças de participar de algumas provas ainda no primeiro semestre de 84, e sempre ouvia a mesma desculpa: o Keith estava muito ocupado e não tivera tempo de trabalhar no meu carro, ou motores. Que droga! Quando podia eu ia assistir ás corridas em Brands Hatch e ficava morrendo de inveja daqueles que podiam competir. Eu tinha carro, mesmo velho, era meu, e muita vontade, mas as circunstâncias não ajudavam. Para piorar, como eu não tinha grana, não podia pressionar muito o infeliz. Nessa altura fiz uma certa amizade com o Johnny Dumfries, que dois anos depois foi o companheiro de Ayrton Senna na equipe Lótus. O cara é o Barão de Dumfries, um lugar na Escócia, e tem muita grana, mas era a simplicidade em pessoa, no modo de falar, no modo de vestir-se. Pagamos boas cervejas um ao outro!

Nessa altura, desolado e para baixo, recebo um telefonema deveras estranho. Um sujeito (não me lembro o nome, mas ainda tenho o cartão dele em algum lugar) se dizendo executivo de uma agência de publicidade que representava a Talbot, queria falar comigo. Não adiantou muito o assunto, mas disse tratar-se de algo relacionado à moribunda Formula Talbot – categoria de monopostos, movidos a etanol, que na altura tinha apenas 6 ou 7 carros no grid. Eles queriam resgatar a categoria. Ótimo! Marcamos uma reunião e eu fui. No interior, lugar lindo, digno de filme de James Bond, uma espécie de castelo, com aquele pátio de cascalhos na frente e uma loira espetacular na recepção. As aparências enganam.....


continua

quinta-feira, 24 de maio de 2012

REPOST: NA ESTRADA




O ano de 1983 apresentava-se a mim com o seguinte aspecto: havia saído de minha Ourinhos natal no início de 1980 diposto a correr de automóveis na Inglaterra, sem experiência alguma (nem em kart), quase sem grana e literalmente, sem lenço e nem documento. Dei muita sorte em conhecer pessoas que me ajudaram e com menos de três meses de Londres, já estava trabalhando legalizado num departamento da ONU - IMO. Juntei um dinheirinho e fui fazer a escola de pilotagem internacionalmente famosa "Jim Russell", com resultados animadores. O ano de 1981 me trouxe algumas decepções, pois aluguei carros de Formula Ford para algumas corridas, mas sem treino e sem conhecer os circuitos, além dos carros serem verdadeiras "cadeiras elétricas", nenhum bom resultado aconteceu. O mesmo sucedeu em 1982, e ao chegar em 1983, eu tomei uma decisão drástica: iria parar de gastar dinheiro alugando carros velhos e não competitivos, e iria tentar comprar algum equipamento. Dito e feito.
Além de meu emprego regular na IMO, que pagava legal, mas evidentemente não permitia extravagâncias tais como correr de carros, consegui um emprego num cinema, o ABC Fulham Road, como lanterninha! eu saía da IMO as cinco da tarde, pegava meu carro e literalmente voava para Fulham ( a IMO era do lado de baixo do Rio Tâmisa áquela altura, prédio novo e lindo, inaugurado pela própria rainha, depois conto a história). Tive vários carros de rua durante o tempo que morei na Inglaterra. Sempre dei preferência para modelos médios/grandes, pois tinha que rebocar carros de corrida, sou meio grandão, etc.
Bom, na IMO eu trabalhava com um iuguslasvo, Zoran, que era o rei do "jeitinho". A comida, além de muito ruim, era muito cara em Londres no começo dos anos 80. Portanto o iuguslavo Zoran tinha uma formula infalível de comer bem e barato: ele adquiriu um guarda pó branco, adentrava um hospital que ficava perto de nosso emprego, nunca ninguém pediu crachá ou coisa parecida, íamos ao enorme restaurante e, num mar de gente de guarda pós brancos, médicos e enfermeiros, principalmente, o que são mais dois? Eu comprei meu guarda pó, e na hora do almoço, saíamos de fininho e íamos ao Lambeth Hospital, onde entrávamos por uma porta lateral. Dali até ao enorme restaurante era perto, entrávamos, ficávamos na fila e comíamos muito, estilo bandejáo por apenas uma libra esterlina! Zoran era muito paquerador, e não demorou muito para que fizesse amizade com algumas enfermeiras bonitinhas. Pois bem, eu saía do meu emprego e na esquina do cinema, havia outro hospital. O mesmo guarda pó, me garantia o jantar por mais uma libra, uma verdadeira pechincha!
Começava o expediente às 6 da tarde, de segunda a sexta, e aos sábados e domingos da uma da tarde até mais de meia noite. Logo peguei um bico de montar os enormes letreiros, com os novos filmes que iam entrar em cartaz. Fazia um frio danado, tinha que ir até o porão, pegar as letras, a escada, e montar na fachada, mas isso me rendia mais alguns trocados. A gerente gostava de mim, pois nunca recusava trabalho, e logo, passei de lanterninha a porteiro, com direito a gravata borboleta e tudo. Era muito legal, pois o cinema era enorme, com 5 salas de exibição e ali eram lançados diversos filmes novos. Tive a oportunidade de ver de perto, astros como Richard Gere, Sean Connery, Jennifer Beals, Debra Winger e muitos outros, além de famosos que iam assistir aos filmes, como o saudoso e eterno "superman" Cristopher Reeve, grandão e muito simpático, que casado com uma inglesa, tinha um apartamente ali ao lado. Durante todo o ano de 1983 eu acumulei os dois empregos e não fiz nenhuma corrida. Mas, ao ver meu extrato bancário eu via que meu primeiro Formula Ford estava cada dia mais perto! Comprava a revista Autosport, que saía na quinta feira, mas eu a conseguia na quarta a noite, numa distribuidora. Assim, podia vasculhar sua seção de classificados antes dos outros leitores, e caso encontrasse alguma coisa que valesse a pena, tinha a vantagem. Acabei encontrando um carro que cabia no meu bolso, um velho Royalle PR24 de 1977 (estávamos em 1983), em ótimas condições ao norte da Inglaterra. O cara tinha começado a correr, acabou casando e o carro tinha pouquíssimo uso, e principalmente, nunca havia sofrido acidentes sérios. Ele me mandou fotos pelo correio (isso tudo foi pré-internet) e um belo dia, fui buscar o meu bólido! Gostei do que vi e não hesitei em fechar o negócio. Havia colocado um "rabicho" no meu carro, atrelei o trailer que acompanhava o carro, mais um monte de peças sobressalentes e um motor extra e rumei para Londres. Onde deixar aquele carro? O "jeitinho" resolve tudo, e falei com minha chefa na IMO, que me permitiu deixar o carro na garagem por alguns dias. Era engraçado ver a cara dos circunspectos ingleses ao chegar ao trabalho de manhã e deparar-se com um trailer, carro de corrida, tudo coberto por lonas, na vaga de estacionamento de seu local de trabalho! Acabei alugando uma garagem dentro do circuito de Brands Hatch, na verdade onde eram os boxes. Não era caro, mas houve um problema: realizou-se no final de 83 em Brands o GP da Europa, e tivemos que remover nossas tralhas por uma semana. Em troca, ganhei ingressos para ver a prova dos boxes, e calhou que onde ficava minha garagem foi utilizada pela equipe Brabham de Nelson Piquet, que venceu a prova! 1984 chegou tão rápido quanto o livro de Orwell, e eu tinha um monte de ferro velhos e nenhuma grana! O inverno foi terrível, mas eu comecei a circular novamente pelos circuitos para ver se fazia contatos, cavava algo para mim. Queria correr e logo! Mas ainda ia demorar....

continua

segunda-feira, 14 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

ESPANHA: CORRIDAÇA COM VITORIA DE MALDONADO


Hoje na Espanha, na quinta etapa deste mundial de Formula 1 incrível, tivemos o quinto piloto e a quinta equipe a vencerem! A corrida em si foi muito movimentada e disputada e talvez o fato de Lewis Hamilton, que havia marcado o melhor tempo nos treinos ter perdido a pole position e ter largado do final do pelotão adicionou mais emoção a ela.
Eu sou um dos que não acreditava muito no Pastor Maldonado quando chegou a Formula 1 com a "pecha" de piloto pagante, talvez por preconceito meu, mas na época afirmei que ele pelo menos, tinha o título da GP2, que é um currículo bastante razoável. Hoje ele pilotou como gente grande e conquistou o respeito de muita gente, inclusive o meu. De Fernando Alonso não há muito o que escrever, exceto que mais uma vez ele tirou leite de pedra. Dos 63 pontos marcados pela Ferrari nesta temporada, 61 pertencem ao bicampeão espanhol, mostrando sua superioridade sobre seu companheiro Felipe Massa, cujo inferno astral parece não terminar nunca. Em terceiro lugar o pré prova favorito de muitos, o "iceman" Kimi Raikkonen, que realmente está pilotando bem, ajudado por um carro que a Lotus parece ter acertado no projeto. Seu companheiro Roman Grosjean fez boa prova também e fechou na quarta posição, nada mal para quem está em suas primeiras provas na categoria, apesar de também ter em seu cartel o título da GP2. Outro que fez boa corrida foi o japonês Kamui Kobayashi, cuja Sauber rende bem desde o começo do ano e fez várias boas ultrapassagens na prova. Em sexto, um mediano Nico Rosberg, lutando quem sabe, contra o desgaste excessivo de pneus de sua Mercedes. Lewis Hamilton fez prova movimentada, tendo perdido tempo atrás de alguns de seus adversários, após ter partido em último, e o oitavo lugar não foi um mal resultado nas circunstâncias.  Em nono, um apagado Jenson Button, que deixou a desejar em relação as apresentações anteriores e conquistando o último pontinho do dia, o bom Nico Hulkenberg com a Force India.
Os brasileiros tiveram uma prova lamentável, a esquecer mesmo, especialmente se considerarmos as apresentações de seus respectivos companheiros de escuderias. Felipe Massa teve um brilhareco no começo, tendo largado bem, mas a partir daí arrastou-se no final do pelotão, chegando a meta num lamentável décimo quinto lugar. Bruno Senna, cujas trajetórias de curvas me pareciam erráticas (eu vi pela TV) está num momento delicado de sua carreira. Apesar de todo o oba-oba do Cretinão Bueno em relação a seu noviciado, ele teve uma temporada completa na Hispania em 2010 e onze provas na então Renault em 2011, além das cinco provas deste ano. Tem mais largadas que o companheiro Maldonado, por exemplo, que já logrou a primeira vitória. Novato ou não, fez péssima prova, apesar de que no caso do acidente, eu vejo culpa exclusivamente em Schumacher, que com sua arrogância oriunda dos tempos em que era o bam-bam-bam, espera que os outros pilotos lhe dêm passagem. Errou grosseiramente na aproximação, bateu na traseira de Senna, chamou-o de idiota, e no final foi punido com a perda de cinco posições na largada em Mônaco, justo lá! Outro que fez ótima prova foi o campeão Sebastian Vettel, combativo e que já não tem o melhor carro neste momento do campeonato. Seu companheiro Mark Webber lutou, mas não brilhou.
Fiquei bastante surpreso com a evolução técnica da equipe Williams e mais ainda com a maturidade com que Pastor Maldonado assumiu a responsabilidade de largar na pole position e não se intimidar com a presença constante de Alonso em seus retrovisores. O campeonato está muito bom e se prevê para breve uma vitória da Lotus que vem evoluindo muito. É disso que gostamos!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

REPOST: CONTINUANDO A SAGA, ORIGINALMENTE POSTA EM 12 DE AGOSTO DE 2009




Quando comecei este blog, em março, se não me falha a memória, pretendia falar de várias coisas, pois minha cabeça é multi-assuntos. Acabei me concentrando mais no automobilismo e tendo uma ótima aceitação. Narrei passo a passo o que me fez gostar tanto desse esporte singular, depois passei a descrever a epopéia de minha aventura pelas pistas européias na condição de piloto de Formula Ford, aspirante de Formula 1 (sonhar não paga nada e é gostoso....rs). Os meus posts sobre as sagas e desventuras eram os mais populares, mas dei uma parada proposital no final de maio, pois não queria caracterizar o blog como sendo "falar de mim, eu e eu mesmo". Almejava e almejo uma aceitação ampla como expert, como crítico, como jornalista especializado, com opiniões próprias e equilibradas. Acho que esse objetivo foi conquistado. Passada essa fase, vou portanto, voltar a narrar minha saga pessoal, que se não foi bem sucedida em me levar à Formula 1, foi muito rica e interessante no plano humano.

Retomando: na última postagem eu narrava como no final de 82 voltei ao Brasil de férias cheio de esperança, pois tinha encontrado um provavel patrocinador na empresa de um inglês casado com uma senhora brasileira, que havia recebido o convite para fazer o curso de pilotagem da Brands Hatch Racing School gratuitamente, e que o próprio Emerson Fittipaldi havia intermediado o empréstimo de um chassis de Formula Ford Van Diemen, da própria fábrica. Ou seja: as coisas estavam extremamente promissoras.
No Brasil, fiz alguns contatos com empresas de São Paulo, me lembro de haver passado horas brincando com uma máquina de escrever portátil a preparar um detalhado "Plano de Patrocínio" (tenho uma cópia em algum lugar). Não havia computadores pessoais, claro, e o jeito era datilografar e tirar cópias. Levei alguns foras, alguns "talvez" e outros nem me receberam. O Brasil era muito diferente naquele início de década de 80, a inflação galopante fazia com que as empresas tivessem muita cautela com investimentos, especialmente em moeda estrangeira. O retorno era incerto, e um caipira de Ourinhos dificilmente teria êxito, entendo isso claramente hoje, mas na época, não ser recebido, ou quando recebido ter que explicar o be-a-bá do automobilismo era frustrante. Mesmo com o sucesso de nossos campeões no exterior, Emerson e a esta altura Piquet, o brasileiro médio ainda não acompanhava as outras categorias, por falta de divulgação e cultura esportiva. Os jornais só davam notícias de futebol ( mudou um pouco, mas não muito), e ter que explicar as divisões das categorias de base, a progressão de carreira e as possibilidades era muito comum.
Voltei cheio de gás para o gelado inverno inglês no começo de 83, após algumas decepções pessoais que nem chegaram a me abalar, pois tinha o firme propósito de me concentrar em ser piloto. As decepções não tardaram: pressionado por dívidas enormes, a equipe Fittipaldi teve que cerrar suas portas, Emerson e Wilsinho entregaram tudo ao fisco inglês e ainda ficaram devendo muito (pagaram anos depois com o sucesso de Emerson nos Eua). O meu patrocinador em potencial foi vítima de um incêndio em sua fábrica de móveis para escritório e não poderia me apoiar financeiramente. Pelo menos pude fazer o curso de pilotagem (novamente, já que havia feito o Jim Russell no final de 80) e foi ótimo para contatos. Conheci pilotos que depois teriam um impacto grande no automobilismo: Julian Bailey, Damon Hill, e muitos outros. Conheci principalmente o chefe de instrução na escola, Tony Trimmer, um inglês magro e caladão, mas de respeitável currículo na carreira, tendo inclusive ganho o prestigioso Grande Premio de Monaco de Formula 3 em 70. Ele me afirmou categoricamente que eu era "material para Formula 1 ", o que aumentou minha confiança, e paradoxalmente, meu desespero, pois não conseguia sair do lugar.

Continua.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

REPOST: CONTINUANDO A JORNADA, PUBLICADO EM 26 DE MAIO DE 2009




Depois de minha primeira corrida, apesar de não ter completado a prova, estava definitivamente decidido a fazer qualquer sacrifício para continuar a correr. Minha situação era a seguinte: tinha um bom emprego durante a semana, não precisando trabalhar aos sábados e domingos. Havia me mudado para um pequeno quarto/sala/cozinha, dividindo banheiro para pagar aluguel baixo. O problema é que um orçamento decente para uma temporada de Formula Ford com uma  das equipes boas (nem pensar na equipe de fábrica Van Diemen - além de só aceitarem pilotos experientes e com bom potencial, o custo era altíssimo, algo em torno de 20 mil libras por temporada) era de mais de 12 mil libras ano. Eu ganhava 400 libras por mês! As outras opções era alugar carros mais baratos na base de corrida por corrida( mas não dava para treinar e nem pegar ritmo), ou comprar um equipamento- muito caro. 
Enquanto buscava opções, consultando furiosamente as páginas de anúncios classificados da "Autosport", eu conseguia alguns bicos para trabalhos temporários nos finais de semana. Me lembro de ter feito pinturas pequenas, lavar copos num restaurante chique, e até um estágio de sábados e domingos numa loja do McDonalds! Sempre fui muito econônico, nem tinha tempo para sair e não gosto de baladas, num determinado momento havia economizado mais de mil libras, decidi alugar um carro e fazer alguns treinos.  Conheci um outro picareta, Doug Wood, que tinha um Van Diemen, além de um Crosslé laranja (devo ter algumas fotos por aí) e o Crosslé, já com alguns anos de uso, era mais barato. Eu queria quilometragem, portanto não hesitei e escolhi o vellhíssimo Crosslé para alguns testes e uma corrida em Snetterton. A memória já não é tão precisa, mas acho que bati o carro numa barreira de pneus por falta absoluta de freios, o que gerou uma feia discussão, pois o cara queria que eu pagasse o prejuízo total, quando havia me garantido que o carro tinha seguro. Eu concordei com a franquia do seguro, jamais pagaria o preço que ele me pediu. No final nos acertamos, mas era duro negociar com aqueles ingleses! 
Para resumir: entre 1981 e 1982 eu corri umas seis ou sete vezes, sempre com equipamentos pré-históricos (na época havia uma categoria de Formula Ford velhos, a Pré 1974 - quase comprei um carro daqueles para correr - mas verifiquei que os custos de manutenção eram quase tão caros quanto). Cansei de levar volta dos líderes, mesmo em corridas curtas, e sem tempo para treinar ou desenvolver eu nada mais podia fazer. Dentro de mim, no entanto, havia uma certeza: toda vez que me sentava num carro de corrida, a cada volta, eu melhorava um pouquinho, e isso me dava uma confiança e uma motivação incríveis!
No final de 1982 conheci uma senhora brasileira que vivia há muito tempo na Inglaterra, Leila, casada com um inglês boa praça e empresário bem conectado. Ela me convidou para ir a sua casa, ficamos amigos e o marido me disse que conhecia o John Webb, dono de Brands Hatch. Parece-me que ele era o fornecedor de móveis de escritório, já que tinha uma pequena fábrica em expansão. Um belo dia recebo um telefonema de alguém em Brands Hatch, achei meio confusa a conversa, mas combinamos um encontro no sábado seguinte. 
Ao chegar ao escritório do autódromo, todos muito amáveis e um frio incrível de dezembro, me disseram o que tinham em mente: Brands Hatch tinha uma escola de pilotagem que eles queriam promover. Haviam convidado o Damon Hill (então correndo de motos), o David Hunt (irmão caçula do James Hunt) o Gary Brabham (filho do meio do lendário Jack Brabham) e o filho da primeira ministra Margaret Tatcher, Mark, para fazer um curso de pilotagem totalmente gratuito, em troca, usando os sobrenomes famosos teriam muita mídia para divulgar a escola. A proposta era extensiva a mim, pelo sobrenome Fittipaldi. Eu achei ótimo, apesar de já ter feito algumas corridas, mas treinar de graça me parecia bom, sem dúvida. Deixei claro que minha relação de parentesco com Emerson era a mais distante possível, eles não se importaram.  Para melhorar as coisas, John o marido de Leila, se entusiasmou com a situação e me prometeu um pequeno patrocínio para o ano seguinte. Não tive dúvidas: peguei o telefone e liguei para o Emerson, que simpático como sempre me deu apoio moral. Alguns dias depois, ele me liga novamente dizendo que havia conversado com o Ralph Firman, dono da Van Diemen e que havia sido seu mecânico na F3, e que este oferecera o chassis 81 que havia sido usado por Ayrton Senna praticamente de graça para eu usar! Não poderia estar mais feliz: um patrocínio acertado, carro prometido, e o apoio- ainda que tímido, do meu ídolo de infância Emerson. Peguei o avião feliz para passar algumas semanas com a família no Brasil, e mal sabia que meus sonhos todos iriam desmoronar quando eu voltasse dos trópicos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

REPOST: DEPOIS DA TEMPESTADE VEM A BONANÇA..... POSTADO EM 16 DE MAIO DE 2009




Pois bem: espero pacientemente minha vez, procuro um lugar para colocar o macacão verde musgo e largo que havia trazido de Ourinhos e que arranca risinhos dos outros "pilotos", e é difícil achar um local com privacidade para isso, uma vez que os banheiros públicos são bem ....públicos mesmo! Inútil também tentar achar algo decente para comer, não me canso de me surpreender negativamente com o amadorismo das instalações dos circuitos ingleses, mesmo os mais importantes como Silverstone e Brands Hatch. Muita lama, estacionamentos distantes, comida nauseante, muita confusão, mas um domingo típico leva mais de 200 competidores e milhares de fãs. Engraçado é que os garotinhos vêm conversar com você, esticando os braços com os programas das corridas e pedem seu autógrafo na página em que está a sua prova, de preferência sobre seu nome.
Mas, vamos voltar a Lydden Hill. Eu seria apenas o terceiro a testar o carro, mas para minha frustração e da nação em geral, o gordinho entalou dentro do carro e precisou ser cortado com maçarico! - To brincando, na verdade a anta do gordo bateu o carro de frente numa barreira de pneus do outro lado da pista, e realmente, ficou sentado dentro do carro esperando socorro. Recolhe as ferramentas, destroca o macacão, a fome apertando e o cara fazendo que não entendia quando eu lhe pedi a minha grana (100 libras pelo teste) de volta. Eu olhei bem nos olhos dele, me lembrei de meus tempos de garoto em Ourinhos quando havia brigas na saída do Horácio Soares quase todos os dias, e que em algumas delas eu era obrigado a me envolver também, fechei os punhos e falei em bom portuinglês: I soc you! (até hoje não procurei no dicionário se há um verbo to soc, mas acho que funcionou, porque ele me chamou Na van e me devolveu a grana).
Claro que uma carona até a estação estava descartada, pus-me a andar e o circuito, além de longe fica no fundo de um vale. Caminhei por uma hora ou mais e cheguei na pequena estação bem a tempo de apanhar um último trem para Londres, frustrado, amargo e muito puto!
Isso foi numa quarta-feira, se não me engano. Qual não foi a minha surpresa ao receber um telefonema do tal de Richard no sábado a tarde, me chamando para competir no dia seguinte em Brands Hatch, e melhor, de graça! Meu inglês era fraco, mas fora bem treinado para detectar a palavra "free" em qualquer situação, e meio descrente ainda, marquei com ele para me pegar na estação as seis da manhã seguinte. 
Nem dormi a noite, preparei minhas coisas, lembrei-me de passar num mercadinho e comprar pão de forma, queijo e presunto, pois não queria passar fome novamente. Licença de piloto, capacete lustrado, macacão - ainda o verde musgo - carteira de piloto provisória, e muita vontade. Levantei antes das cinco, tomei banho (que frio....) e pus-me a caminho da pista. Cheguei pouco depois da seis e um animado Richard, sorridente e com aparente problema de amnésia (nem mencionou o "soc").  Ele me disse que eu seria um de três pilotos que utilizariam o carro naquele "meeting", no lugar de um desistente, e como o rapaz não fizera questão de buscar a devolução do dinheiro, eu poderia pegar alguma prática. Olhei o programa e eu seria um tal de Tobby alguma coisa, mas nem liguei. Brands Hatch era bem mais movimentado que Lydden Hill e apesar de já ter assistido a algumas corridas naquela pista, jamais havia entrado na mesma, a pé ou de carro. A minha prova era a primeira, portanto ele me recomendou que me trocasse e ficasse pronto. Ansioso, esperei pacientemente até que descarregassem o "bólido" do pequeno trailer e pude verificar, para meu alívio que o negão não era um dos outros dois pilotos do carrinho azul. Como existiam otários naquela época!
Richard tentou me dar algumas explicações sobre temperaturas de pneus, macetes da pista, estas coisas, enquanto eu entrava no carro e apertava o cinto de segurança, mas francamente, eu não o ouvia, tamanha era minha excitação! Não só era meu primeiro treino oficial, como também era o primeiro treino da minha vida, já valendo tempo e numa pista que eu jamais estivera, do alto da experiência de um curso de inverno de escola de pilotagem.
Funcionei o motor, aqueci, e esperei pacientemente para entrar na fila que ia para a pista. Não se esqueceram de colocar a plaquinha amarela com a letra "L", como para avisar aos outros o perigo ambulante que estavam prestes a encarar. Tudo acontece muito rápido: você acelera, entra na pista, acelera mais, parece não sair do lugar, e logo vai tomando volta dos mais rápidos, preocupando-se mais com o espelho retrovisor do que com a pista adiante. Uma volta, duas, muito rápido numa curva, rodei, bandeiras amarelas, motor  funcionando, engatei primeira e segui novamente. O coração acelerado, o rosto certamente vermelho de vergonha, a balaclava roxa fazendo bem o seu papel de esconder isso do mundo! Procurei terminar o treino e não fazer mais besteiras, de vez em quando dava para olhar o conta-giros e os outros relógios no painel, mas em 20 minutos, você aprende muito, muito mais que em uma semana de curso. Classifiquei-me em ante-penúltimo, acho que os outros dois caras estavam competindo de bicicleta, porque sabia que tinha muito que aprender. Se bem me recordo, meu tempo foi por volta de 59 segundos para o circuito indy de Brands, quando os ponteiros já rodavam por volta de 50 cravados. Richard ficou muito feliz que eu tivesse trazido o carro em uma única peça de volta para os boxes, mas mal pode me dar atenção, pois havia ainda duas classificações para outras duas corridas com o mesmo carro. Nem me lembro do tempo dos outros pilotos, suas corridas eram mais difíceis, mas acho que me saí bem, pois todos me olhavam com um certo ar de respeito, ou talvez, o meu macacão de brim verde musgo os impressionasse, sei lá.
A minha largada era logo depois do almoço, e eu super ansioso recebo a boa notícia: o alternador não carregava a bateria e a única que tínhamos havia descarregado quase completamente. Portanto, teríamos que ligar o carro no tranco (escondido dos fiscais), coisa que para mim era fácil, pois meu pai havia me treinado durante anos com uma infinidade de carros velhos e sem partida, mas eu não poderia em caso de rodar novamente, deixar o motor morrer. OK, no problem, Richard!
Um dos momentos inesquecíveis de minha vida foi a volta até chegarmos ao ponto de partida de Brands Hatch naquele domingo frio de 1981 - nem me lembro a data exata. Mas foi incrível, eu olhava para as arquibancadas de dentro de meu capacete de motos, verde como o macacão, e mal podia acreditar que estava ali, do lado de dentro da pista.  Acho que havia uns vinte e oito carros no grid, eu era o vigésimo-sexto e decidi não me estressar, apenas curtir a corrida, como se fosse a única de minha vida. E foi exatamente o que fiz: larguei bem, passei uns dois, outros dois saíram rodando na curvona depois da linha de chegada e fui conduzindo o carro até o final, tranquilo, sem olhar os relógios do painel, até que.....a bateria foi ficando fraca e o carro perdeu rendimento, após umas cinco ou seis voltas de 15. Pena. Estacionei ao lado da pista e fiquei observando os outros pilotos, capacete na mão e me sentindo um piloto. Desnecessário dizer que minha ansiada assinatura na licença não veio, por não ter completado a prova, mas Richard me teceu muitos elogios.
De volta a realidade, comecei a matutar como conseguir dinheiro para mais treinos e mais provas. Havia ficado definitivamente viciado no negócio. Queria mais e mais!

JEAN PIERRE BELTOISE: 75 ANOS DE VIDA




Eu gostava do piloto francês Jean Pierre Beltoise, confesso que nunca foi um dos meus ídolos maiores, mas sentia simpatia pelo seu esforço, pela sua história (sofreu terrível acidente de moto e ficou meses no hospital, manca até hoje). Mas um fato o marca em minha privilegiada galeria de memórias: foi o vencedor daquele Grande Prêmio de Mônaco de 1972, sob chuva torrencial, que por acaso foi a primeira prova a ser televisionada ao vivo e direto para o Brasil, seguindo as boas apresentações de Emerson Fittipaldi (que viria a se sagrar campeão ao final daquela mesma temporada). Feliz aniversário, Beltoise!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

RESPOSTAGEM: FINALMENTE UM PILOTO. PILOTO QUER CORRER. MÃOS A OBRA. PUBLICADO EM 15 DE MAIO DE 2009





Volto a Londres e à dura vida de proletário. Na verdade nada de que me queixar, se nos três primeiros meses trabalhei como lavador de pratos e camareiro, além de eventuais bicos, à essa altura já estava, graças ao meu "guardian angel" Mário, trabalhando na IMO, orgão da ONU responsável pelos oceanos. Emprego legal, divertido, pagava razoavemente bem, e principalmente, me garantia a estadia legalizada no Reino Unido!
O ano de 1980 chega ao fim e eu perscrutava as páginas finais da revista "Autosport", seção de classificados, para ver se conseguia alguma oportunidade, alguma equipe contratando futuros campeões mundiais de Formula 1, quem sabe! Claro, o  mais comum eram anúncios de carros de corrida usados à venda, alguns profissionais se oferecendo, equipes mostrando suas estruturas e por aí vai. No entanto, haviam alguns anúncios de "Hire a Formula Ford for cheap" - alugue um Formula Ford barato, e eu comecei a anotar os telefones, sem ainda ter a coragem para ligar, afinal a temporada já havia terminado e não havia corridas acontecendo. 
No início de 1981 comecei a ir assistir as corridas, especialmente Brands Hatch, pois era próxima a Londres e eu podia ir de trem. Já contei aqui as passagens das primeiras provas do Ayrton Senna, onde eu ficava "sapeando" nos boxes, amparado por minha carteira provisória de piloto inglês e muita lábia brasileira. Conheci outros pilotos e potenciais pilotos, e também chefes de equipes, mecânicos, e se bem que meu inglês era paupérrimo, alguma coisa já dava para entender e me fazer entender. O problema é que eu ganhava cerca de 450 libras esterlinas por mês, que era um belo salário, mas o aluguel de um Formula Ford velho, era por volta de 300 libras por corrida, que durava em média dez, doze minutos. Claro que as grandes equipes, como a Van Diemenn, do Senna, cobravam cerca de vinte mil libras por temporada, incluindo treinos, inscrições e tudo o mais. Totalmente fora de meu alcance financeiro.
Lá por abril, maio, eu vi um anúncio na revista Autosport, de um tal de Richard Ward (não esqueço o nome do maledeto, mesmo quase trinta anos depois) que tinha um Van Diemen 80 (razoavelmente novo, portanto). Liguei para o cara, marcamos de nos encontrarmos em um pub, ele era jovem (uns 30 anos no máximo) e me disse que havia tentado ser piloto, mas que tinha vocação mesmo para gerenciar carreiras de outros, que como eu, tinham mais talento para a coisa. O inocente aqui, acreditou e conversamos bastante, eu cheguei inclusive a ir a sua casa, conheci sua esposa, etc. Na verdade, o carrinho dele era um Van Diemenn 78 azulzinho, malhado e mais batido  que carro do Andrea de Cesaris em final de temporada, modificado para modelo 80.
Bom, para encurtar a história, resolvi fazer minha estréia, com a carteira provisória eu tinha que fazer 6 corridas nacionais (não podiam ser em campeonatos internacionais, portanto) e completar todas, obtendo as assinaturas dos fiscais, além de levar no carro uma placa amarela com a letra L em preto (learner= aprendiz), humilhante, mas útil. Marcamos para eu testar o carro num dia de semana em um pequeno autódromo chamado Lydden Hill, bem perto do litoral, ao sul, pista que hoje pertence á Mclaren. Pistinha de morro, pequena, seletiva, uma delícia. Peguei o trem, alguém me apanhou na estação, quase duas horas de Londres, e a surpresa: como haviam 3 corridas de Formula Ford no programa, haviam uns 3 coitados pagando para dividir o mesmo carro no mesmo evento: um sujeito baixinho e mal humorado, bem mais velho, um negão gordo (que imaginei teria que ser colocado no carro antes da carenagem, para caber dentro) e yours trully, o caipira aqui.