quarta-feira, 7 de outubro de 2020
terça-feira, 6 de outubro de 2020
domingo, 4 de outubro de 2020
A efémeride importante: 50 anos da vitória do Emerson em Watkins Glenn!
Mergulhando fundo no túnel das lembranças mais distantes, semicerro os olhos e visualizo um garotinho magro, franzino até, de exatos dez anos de idade. Coleciona figurinhas, lê muitos livros de aventuras ( Mark Twain e seu incrível As aventuras de Tom Sawyer; O Conde de Montecristo do Dumas são alguns que a enferrujada memória resgata daquela época). Lá fora o Brasil vivia o tão propalado “milagre econômico”, mas isso não era preocupação para um menino tão novo, cujos olhos em êxtase começavam a enxergar as coisas que o encantariam nas décadas seguintes: motos, carros, aviões, garotas (claro) e as muitas possiblidades que uma vida em seu prólogo promete.
1970 foi um ano marcante para muitos brasileiros: ganhamos com sobras a Copa do Mundo no México, com uma seleção inesquecível, forrada de craques do quilate de Gerson, Clodoaldo, Rivelino, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto, Edu e o gênio Pelé. Ainda na precária TV em preto e branco fomos vencendo jogo após jogo até aquela apoteótica final contra a Itália onde os quatro a um não deixaram dúvidas: éramos os melhores! Logo em seguida, vô Bernardo, espanhol bonachão e sempre com um cigarro de palha pendurado nos lábios me presenteou com minha primeira bicicleta “grande” : uma Monareta Olé70!, com a qual tive inúmeras aventuras ao longo dos anos seguintes.Eu já era diferente: ao hegemônico futebol, preferia de longe as corridas de carros, sem jamais ter visto uma pessoalmente, ou mesmo pela TV. No máximo, haviam uns filmes antigos de velhas corridas em Indianápolis que algum obscuro programa de esportes passava esporadicamente, ressaltando, é claro, os acidentes quase sempre espetaculares. Mas, meu saudoso pai comprava as indefectíveis Autoesporte e Quatro Rodas, que eu, aos 10 anos já degustava de capa a capa. Eu sabia, que o Emerson Fittipaldi (ele é nosso parente, dizia o pai) já havia estreado na Formula 1 pela famosa equipe Lotus, no Grande Prêmio da Inglaterra. Sabia também que ele já havia pontuado (em 4° lugar) em sua segunda participação na Alemanha. Sabia sobretudo da tristeza da morte do austríaco Jochen Rindt o virtual e eventual campeão daquela temporada nos treinos do Grande Prêmio italiano em Monza, onde o próprio Emerson havia sofrido grave acidente nos treinos.
Era um domingo. A gente não acompanhava as corridas ao vivo, nem no rádio. Não no interior. Não na minha casa. Domingo era dia de ópera e macarrão. Eu adorava a ambos e meu irmão Enzo se escondia de meu pai que nos “obrigava” a gostar de ópera. Depois do almoço meu pai tinha um radinho de pilhas e ele ficava fuçando no dial das A M s da vida buscando por notícias (sempre foi ávido por informações). Ele me chamou e falou: Cezar Augusto....você não vai acreditar! Eu, ansioso por saber em que não acreditar esperei. – O Emerson ganhou a corrida! – Que corrida, pai? – O Grande Prêmio dos Estados Unidos, justamente o que paga o maior prêmio!
Para um menino de 10 anos era uma coisa grande, mas não soube, obviamente, naquele momento dimensionar o feito. Fiquei feliz, muito feliz. E ansioso para, dali a vinte, quiçá trinta dias conferir nas páginas da Autoesporte os detalhes da corrida. Fecho novamente os olhos e vejo aquele garotinho que mal compreendia o mundo. Percebo que o adulto que ele se tornou continua a pouco entender certas coisas. Mas algo ele sabe: temos que valorizar as coisas boas, as marcas de alegria que pontuam nosso caminho e, principalmente, cultivar nossas relações com amor e carinho. Valeu pai, valeu Emerson!
OBS: depois do caminho aberto pelo Emerson, tivemos mais de 30 pilotos brasileiros na Formula 1. Acompanhei a carreira de cada um deles, alguns conheci pessoalmente. Dois desses caras se eternizaram nas estatísticas e em nossos corações: Nelson Piquet e Ayrton Senna, ambos tricampeões, após o bicampeonato do próprio Emerson. Mas a primeira vitória, ainda que obscura na memória de um garotinho que hoje se hospeda no corpo de um senhor grisalho e com sobrepeso, essa jamais será esquecida!
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
sábado, 26 de setembro de 2020
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
terça-feira, 22 de setembro de 2020
GP da África do Sul 1977
Como pode um não-saudosista sentir saudades? Mistério! Quando olho essa
foto, mergulho numa viagem íntima e vertiginosa em direção ao passado, mais
precisamente a segunda metade dos loucos e vibrantes anos setenta: vejo um
rapaz tímido, com espinhas demais e confiança de menos, óculos fora de moda
(eram mais baratos), uma calça boca de sino (ridículas em retrospecto, mas
fazia sentido então) ensimesmado num mundo que não o compreendia e muito menos o
acolhia. Poucos amigos (alguns até hoje para provar a resiliência das amizades
verdadeiras), um gosto diferente para esportes. Pois é, o rapaz adorava
corridas de automóveis, de Formula 1 em particular. E tinha um sonho que o
resgataria da mediocridade a que estava condenado se continuasse a se conformar
com as migalhas que o destino lhe destinava: pilotar uma daquelas máquinas,
dominar o bólido em seu limite e quem sabe, além. O tempo provou que sonhos
impossíveis têm gradações e etapas, como degraus de uma enorme escadaria. Se
não chegou a pilotar uma dessas máquinas teve pelo menos a sensação
inesquecível de largar no meio de 30 carros e disputar uma freada no final de
uma reta, em Silverstone, Brands Hatch e outros circuitos menos famosos. Mas,
voltando à foto em questão, ela é emblemática por ser a última prova do valente
piloto galês Tom Pryce, que num acidente bizarro, impensável nos dias de hoje,
atropelou um jovem e inexperiente bandeirinha de apenas 17 anos de idade que
atravessou a pista para socorrer o outro Shadow, do companheiro de Pryce, Renzo
Zorzi. Na foto que imortalizou o momento vemos a traseira fugaz do então
campeão, James Hunt e sua McLaren, seguido por dois outros campeões: o valente
Niki Lauda, ainda ostentando as marcas de queimadura que desfiguraram seu rosto
no ano anterior em Nurburgring, com sua linda Ferrari, com a qual se sagraria
campeão mundial pela segunda vez ao final da temporada para dar um belo “pé na
bunda” do Commendatore e Jody Scheckter com o sensacional Wolf Cosworth,
projeto de Harvey Postelatwaite, que havia vencido na estréia na Argentina. No
lindo Brabham vermelho de nº 8, está o saudoso Carlos Pace, Moco, na que seria
também, sua última corrida, antes de falecer num acidente de avião no Brasil,
tendo ao seu lado um dos mais originais carros de corrida da história, o
Tyrrell de seis rodas pilotado pelo intrépido francês Patrick Depailler. Bem no
meio, no Copersucar amarelo está o bicampeão Emerson Fittipaldi e o futuro
ainda parecia ser promissor para ele e para a equipe brasileira. Eu poderia
ficar horas digredindo sobre esta foto em particular, que suscita tantas
memórias e no final, a ilusão de capturar um momento em nossa fugaz passagem
terrena nos torna melancólicos e....saudosistas! Uma salva a todos os grandes
campeões que povoaram a imaginação de tantos sonhadores como eu, e também
àquele rapazola de 17 anos que no futuro iria provar coisas interessantes que
nem sonhava naquele momento.


